7.6.07

um pouco de beckett - o tempo V



são de matar, as lembranças. então não se deve pensar em certas coisas, naquelas que nos são mais caras, ou antes deve-se pensar nelas, pois não pensando nelas corre-se o risco de encontrá-las, na memória, pouco a pouco. quer dizer que se deve pensar nelas durante um tempo, um bom tempo, todos os dias e várias vezes ao dia, até que a lama as recubra com uma camada intransponível. é uma ordem.

faz tempo / a festa de despedida

aaaaargh, atravessada por mil agulhas.
acabaram de atear fogo aos desejos da árvore da despedida, neste exato segundo, mas eu fiquei saturada de pessoas, vozes, mãos, copos, sons, olhos, fumaça, e vim me retirar um momento, como normalmente faço nessas reuniões sociais, pra viver sem o leve sorriso contraído no canto da boca, sem sapatos e com a calcinha à vista pois estou com as pernas confortavelmente abertas.
eu prefiro a boa e velha coisa lenta, demorada, introspectiva e solitária. todos já se mudaram do apartamento mas eu resolvi dormir aqui sozinha até o último dia com tudo o que eu realmente preciso para viver, um tanto mais até, e percebo que na verdade não se precisa de quase nada que faça volume e que coisas que eu realmente precisava não existem agora, e a àrvore dos desejos em chamas.
tenho:
o colchão de solteiro no chão com lençol, edredon e um travesseiro
uma luminária
caderno
estojo de canetas stabilo, lápis, borracha e estilete
uma pequenha mala de roupas, sapatos e derivados
o computador
telefone
remédios homeopáticos, incluindo a passiflora pra dormir decentemente
câmera fotográfica
dicionário de alemão
"novelas", edição com 3 delas, do beckett
ipod
kit com garfo, faca e colher, um de cada

acho que a lista já está grande.