22.4.08

niente / für immer / 2012




hoje teve um terremoto.

eu, não senti nada. niente. nichts.

bis jamais-jamé.
bis bald, wiedersehen.
wiederfehlen.
wiederfühlen
weiter flieBen
e eu amo tudo o que flui - toujours.


quadrados




Nós vivemos uns em cima dos outros, literalmente empilhados, nas mais diversas configurações que os caixotes permitem - perímetros, pés-direitos, $/m2, sancas, cômodos e cortinas são alguns dos itens de diferenciação. Num só relance e tuuuum, um túnel bem focado nos mostra o caminho até a cozinha do vizinho da frente, cabelos sendo penteados, luzes de tons tv-azulados a abajoures-avermelhados, mesas postas, as reformas e geladeiras providencialmente colocadas na sala, se vê bem mais que sexo, e aos montes, explícito.

Eu, na morada atual, gosto de presenciar relances de uma família de judeus ortodoxos que assisto da janela da cozinha. As crianças sempre de alfaiataria, não importa o calor que faça tem alguma peça preta pesando sobre elas. A mãe com uma touca escondendo o cabelo. Nunca vi o pai, mas sei que ele existe. Eles fingem não me ver, é a extrema educação, claro, e assim me sinto mais à vontade em olhar fixamente, sem virar o rosto. Nunca tive muito pudor com janelas, mas em respeito a eles sempre vou para a cozinha de soutien ou numa toalha quando me levanto para o primeiro copo de água, meu único ritual.

Estamos aqui, milhões, uns em cima dos outros. Unhas de cachorros no meu teto, minhas passadas leves no carpete de madeira faz o teto da pessoa de baixo. Eu procuro sempre tirar o sapato quando chego ou caminho depois das 22h.

E o estranho não é nem somente que não saibamos o nome de ninguém, de ninguém dessas pessoas. Nomes sempre podem ser mudados e renovados, e no fim, quanto mais íntimos ficamos, sintetizamo-nos às iniciais, pois dar um rosto a uma solitária letra só pode significar alguém que se conhece muito, e a letra fica forte, maior que o nome todo. É que, por mais que toda a racionalização da habitação urbana faça o maior sentido do mundo, é uma coisa mesmo bizarra viver encaixotado em vitrines.