28.11.08

gçaba I



toda a síntese numa só noite: dois litros da cataia, um forte aos pedaços na beira de um rio salgado e por entre os pedaços de repente salta uma sereia às quatro horas - fez isso por três vezes, e saiu do último pulo integralmente escaldada de jeans e aquele cabelo até o cós e pediu: quem tem fogo? saiu de bicicleta. todos os landers daquela cidadezica chegaram rastejando aos poucos, lentamente, com pedidos de coisas e sacolas com cervejas. todos estão meio em transe - não os landers, que sempre estão, mas nós - porque dois litros de cataia e tudo muito absurdo, depois daqueles coroas desdentados e fotos de celular da polaca de nova iorrrque. anunciei, sei lá por que diabos: sou o juarez. provavelmente porque tudo estava tão fora de mim que precisava de um mais novíssimo nome, como de costume, mas agora um nome como esse. imediatamente depois de uma porção de danças improváveis e antes de cair nuns braços e soltar os cabelos.

29.10.08

i'm the one



e daí que eu gosto de tempos quebrados? my target is your eyes. não dá. isso é muito ruim, porque caramba no fundo é mesmo tudo apenas química. meu último vício me mantém imune ao amor. então funciona o "hi, i'm petra" "meu nome é carina" "sabrina, prazer". se chama fobia de conhecer gente, apesar de que, para aqueles que eventualmente descobrem, trata-se de mania. claro que me divirto com tudo isso, mas o mote é autopreservação. todo mundo deveria exercitar essas coisas. levei um dia para me erguer e cair - mein todestrip ist jetzt begonnen.

26.10.08



toda vez que fecho a porta sinto esmagar a cabeça de um dos gatos. delírio, sempre é claro. quantos dogmas pode-se criar sobre: uma mesa para vinte pessoas; uma luz a mais acesa na cozinha; uma garota vitoriana, e isso ser muitíssimo feio; a coisa mais engraçada que se pode pensar sobre nudez. e, por mais que se tente achar o contrário, isso tudo ser absolutamente plausível, sem surrealismos ou invenções de mundos exóticos - nada mais que hoje, assim como o vejo. o significado das coisas pode ser bem estúpido.

21.10.08



e preste atenção: se prega escadas num altar e espera que isso signifique alguma coisa. provavelmente está certo. mas não há método mais digno de pena de tentar ficar a par com o tempo. a partir de 2015 o universo estará a 20 mil dólares de distância e cinco minutos poderão ser todo o resto de nossas vidas. a única resolução para isso será atirar as escadas aos penhascos. existem maneiras muito mais sábias de se movimentar nas verticais - quiçá nas tangentes! "no fundo apenas uma predestinação a uma morte precoce". danem-se as estrelas - prefiro corredores.
_______

"a mais calma e leve de todas as coisas um dia veio até mim!". quem sabe ela poderia e todos pudessem assim ter a chance de possuir tal passado para redimir.

7.10.08



não havia outra saída, pensou. já havia feito de tudo, estocado flores secas em todos os seus livros, frequentado os lugares onde sabia que a encontraria bêbada e sorridente. aqueles dentes magníficos - sempre ficam melhores quando ela tem a pele brilhante de suor e os cabelos molhados. não conseguiu sequer se apresentar, todos esses meses. enfim, a viu saindo daquele clube de sempre, com mais um rapaz sem muito cabelo. estremeceu: cadê o cavalo? cadê o cavalo? sabia que, cada noite em que ela o deixava içado no quarto, nunca tinha consciência de chegar em casa antes do sol. diz-se da demônia do foxtrot, uma lenda dos anos 20 que a garota realmente adorava. por fim, avistou-o, amarelo. no exato momento em que ela subia no cavalo não teve dúvidas: correu e meteu a cabeça entre suas pernas. ele a encharcou nas coxas de tanto temor. levou um coice na cara.

3.10.08

da exposição solar constante tive três filhos. como não sei lidar muito bem com coisas simultâneas, meti suas cabeças em baldes com cimento fresco e tudo ficou então aprumado. eu - plena. parti com algumas sacolas a menos, deixando para trás a jaula com os animais, tão desamparados. pensei no ninguém que iria alimentá-los dali pra frente, e na morte lenta que sofreriam, se mastigando uns aos outros por mais algumas horas de agonia. e a querida japonesa? ficara também, atada às pernas da cama pelos braços e pelos cabelos, com um pratinho de morangos. pelo menos a sede ela mata.

28.9.08



esteve amante de um açougueiro. cada noite ele desejava um pedaço dela pois só enxergava em retalhos: a bunda, as pernas, a boca, os grampos, as botas e por fim os seios. afundou seu rosto enquanto dizia como eles estarão ainda iguais quando ela fizer 70 anos. ele lidava muito bem com a carne, mas nunca entendeu o gosto que ela tinha pelo cheiro de pele; "só o das peles que eu aprecio, claro". também percebeu que o rapaz achava suas costas boas de morder. uma vez eles acordaram com um gato rosnando entre os dois então se deu conta da mulher ali, inteira e nua. disse que não conseguia acreditar e deu o veredito - você sabe mentir bem. só porque não entendia o que via seus olhos e era inimaginável a capacidade da mulher de contar boas histórias. só podem ser mentiras. é tão simples: a mulher gosta de viver e é isso que gera boas histórias. ela desistiu e resolveu ir de vez para fora daquele quarto sem quadros. só uns dias depois percebeu que deixara o fígado para trás.

21.9.08

d'ombre / bestiário / engel



chorei com a pegadinha do tubarão. porque é o seguinte: a cada tubarão que passa, eu fico mais cínico. e cinismo pode ser bom para conversas, mas é uma merda quando é desenvolvido em relação à felicidade - meu maior demônio me contou isso. citalopram com mojito para todos! então funciona assim: a cada encontro o objetivo é a independência, a alegria por estarmos vivos e bem. e quando não nos vemos a coisa aumenta e aumenta, até que, para não ser engolido por um tubarão, preciso marcar uma nova visita. a lama, ainda fresca. sigo a prescrição metodicamente, mas ainda assim eventualmente enlouqueço na espera ingênua pela secura intransponível. então, o cinismo me deixou incapacitado de abraçar as coisas que mais amo. a ansiedade me faz rir compulsivamente e tagarelar por não conseguir sair correndo de mim mesmo. weil ich meine garce d'ombre wiederliebe.

18.9.08

saí sem meu cavalo - um erro



então foi isso. um dia no inferno e o anúncio do fim da noite num grande tombo enlameado com cerveja. em frente a todos os nobres cavaleiros - ela sempre acaba sendo aquelas meninas dos filmes franceses, petulantes e infantis, que caem por aí às 5 da manhã. ah, petulância, resolveu não deixar por menos e partir com dois enfants, que no fim eram irmãos e passaram o início de sua manhã vociferando palavras de ódio e jesus, ela não aguentava mais ter que discutir sobre o syd barret. ela só prefere ele e ponto. na hora de se afogar com um deles bateu-lhe um desespero como nunca tinha sentido, um medo do corpo como uma vez lhe disseram. além do mais, não há coisa que ela odeie tanto quanto umidade no ouvido, deveria ser coisa proibidíssima. então se esgueirou e saiu sob brados de 'sua medrosa, só volto lá no ano que vem'. metendo a camiseta por dentro da saia, olhou par'o james e comentou sobre seus olhos bonitos, pequenos, e que ano que vem ela não existiu mais.

17.9.08

l'univers VI - mitologias



troca de cabeças tem sido uma cirurgia reparatória cada vez mais comum. ajuda naquela história de que o sol é meio mestre, mas ele e deus e o universo cabem dentro da química; e a química, enganamo-nos, jamais caberia numa condição humana. na cabeça, imagina. por mais que a gente viva trocando-as.

15.9.08



caramba, vamos logo mascar essas camilas! fico atordoada com o tempo, continuamente. é um jogo de pingue-pongue sem braços, tipo pintores com os pés e com a boca. umas piscadelas para os porteiros são sempre úteis nesses casos, eles carregam as raquetes para nós. tudo isso para tentar escapar do buraco negro das faculdades - cognitivas e linguísticas. me banho numa orgia de mel e tento me safar ainda com a sanidade pelo mesmo velho fio. aquela vaca me falou, roçando a língua nos dentes: vontade e dinheiro não são suficientes, meine Frau. muito obrigada pela ajuda, sua prostituta. Guten Tag.

13.9.08

i'm a painter i'm a horse



a noite passada eu acordei tão fodido que preferi não dormir esta. porque a cabeça fica num loop de am siebenundzwanzigsten Oktober a velocidades cada vez mais ensurdecedoras. já não consigo mais decifrar uma letra da outra, e o mantra virou um raio. assim, peguei meu gravador em rolo de 1/2 polegada e me enfaixei da orelha ao umbigo para abafar o som. o chá de boa noite me mantém cada vez mais acordado. a garota não me liga, orgulhosa que é, deve estar rebolando por aí com os olhos vendados. eu não ligo nem o meu barbeador mais. é complicado, porque os meus pentelhos crescem como árvores até o pescoço, vão colando barriga acima, saem pelo nariz. bastante repulsivo. ainda bem que ela não me procurou hoje.

11.9.08

l'amour



- então morra. morra e renasça quantas vezes precisar. mas faça isso logo, pois eles já estão nos esperando há 30 minutos.
- você nunca me amou de verdade, não é mesmo? esteve fingindo todo o tempo. durante 5 anos. - que coisa mais estúpida você está me dizendo. desde a primeira vez que te vi passar, toda retinha, me refiz todo por dentro. e olha que você usava umas roupas horríveis, de moleque. - é. mas eu sempre tive postura. e você também: me apaixonei pelo jeito que você se sentava ao computador, quase escorregando da cadeira. ainda assim, com porte. e não quis ver mais ninguém pela frente por um bom tempo. - posso chamá-la de irmã mais velha? assim, como um recém-nascido que precisa ser guiado; e as únicas pessoas que sempre dizem sua pior verdade são as irmãs. elas podem mesmo ser cruéis. - mas que caralho de amor é esse, como você me pede isso, rapaz? me chame de inimiga, porque é isso o que nos tornamos, para sempre. carregando um cetro, regendo o próprio inferno. você sabe bem do que estou falando. - por isso te disse: morra e renasça quantas vezes precisar. por nós, eu farei o mesmo. - e por hora você volta para sua compania. caramba. compania. é o pior eufemismo para suicídio. - você é mesmo vingativa. - o que mais pode querer sua inimiga?


- vamos só tomar uma cerveja, desmitificar esse nosso lance de trepadas sem nome e noites esfumaçadas.

- ok, garota. mas então me dê seu nome de verdade. não pode ser tábata.
- haha, não. tábata, é o nome mais horrível que eu consegui inventar na hora. assim como carina, que não é nada horrível. o que rege, sempre, é o tempo. e o seu, é jonathan, certo?
- você é maluca.
- somos iguais. a gente tem esse lance deixado pra trás que não será nunca deixado pra trás. você, com seu par de pernas loiras, eu com a imagem de um pescoço bem viril. com foco, sem foco.
- mas porque isso? eu não preciso mais dela, você não precisa mais dele.
- é só um álibi para não fazermos nenhuma besteira. você sabe que tenho apenas mais 15 dias.
- e espera um filho meu.
- não sei ainda. não sei se quero esperar esse tipo de coisa. olha, isso não pode estar certo se eu penso num filho como numa coisa.
- eu ainda não tenho quadros pendurados na minha parede. só tenho aquele baú que minha mãe me presenteou, para guardar as coisas. guardei, e nunca o abro. depois de 3 anos e meio já me esqueci do que tem lá.
- é, mais ou menos como eu e minhas caixas. vou abri-las daqui uns 10 anos e me encher com surpresas: porque diabos guardei esses tupperwares e caixas de fósforos peruanas?
- eu coleciono baralhos de tarô estrangeiros. não sei porque, nunca fui crente.
- temos que ter uns ídolos, espécies de amuletos. eu carrego uns que um inimigo me deu: uma pantera e sua esposa, a sereia espadada. eles vão comigo, inclusive.
- para a bulgária?
- para sempre.

10.9.08

mitologias V



caramba. a garota está aterrorizada, fica repetidamente desenhando o rosto da fenix que copia de fotos roubadas na internet. parece não perceber o papel de completa babaca que está fazendo de si mesma, morrendo de ciúmes de uma pássaro. ela está voando para longe, garota. nesse seu desepero bobo corre à maquininha de costura, faz pena por pena com o maior esmero, cada uma com sua estampa, um primor de asa. duas asas. faz até um bico ridículo estufado com espuma, mas nem ao menos notou que a fenix não tem bico - só esses enormes olhos coloridos que ela não consegue simular, jesuis. agora ela entorna xícaras de café preto na esperança de partilhar da matilha. à noite, só pesadelos. um dia mete uma bala bem no meio do esterno.

4.9.08

mitologias IV o tempo XI

quinta-feira, 7h00. sento numa das mesas da lanchonete quase vazia. não tenho nada a pedir realmente além de uma distração para os 83 minutos seguintes - espero por mais um ônibus e assisto os andares locais. num balcão de aço, manchas gordurosas opacam o contraste com os bancos de discos vermelho-nacarados. vasos chineses para bundas. em dois deles, chaos & femelle mastigam serpentes como se fossem rosquinhas, lambendo os dedos enquanto elas gritam em guinchos finos de ouro. chaos & femelle se entreolham sorrindo, as barrigas cheias de víboras, então caminham sobre os relógios dos últimos 5 anos para que o eterno nunca mais retorne e num estrondo o universo se renove. neste momento caem os braços de uma vênus aflita pelo fim das horas. 26 minutos.

ao fundo da lanchonete um velho caipira de boné amarelo tem uma câmera na mão e uma tv à frente. sua senhora se foi e ele insiste num feedback, apontando a filmadora para a tela, sua em bicas. sofro por essa nossa mania de querer aprisionar o tempo em imagens. 2 minutos.

2.9.08



tome um pedaço de bolo para se calar, cheia de lamentações. mulher é sempre a chata, e por isso ela não quer ser mãe - quer ser pai. com os olhos inchados desse jeito, só umas boas palmadas estaladas podem fazê-la sarar. e devem ser dadas por algum rapaz que escreva uma música sobre ela, de como ela é uma dessas garotas do crumb. 'você pode subir em cima de mim se quiser.' ele quer sentar sobre sua bunda enorme, dessas que deixam os homens loucos, grande para trás, e assistir um video do serge gainsbourg do começo de carreira. em cima do criado-mudo uma foto das pernas da ex-namorada: é a única imagem que me agrada. por isso ando muito de olhos fechados por aí. ela fugiu com o escultor.

31.8.08

landers - mitologias

os landers também são conhecidos por serem comedores de resíduos. funcionam como uma espécie de filtros de si mesmos, reutilizando seus dejetos como mistura para dar mais volume ao crack, e a queima disso ainda é usada como alimento depois. quando vêm pedir moedas para lanches e pacotes de bolachas é só porque gostariam de variar a nutrição, pois jamais passam fome com o processamento dos resíduos. claro que esse tipo de comida os deixa absurdamente magros, todos cabeçudos e com as costelas marcando as camisetas ralas - por isso sempre andam com mantas sobre os ombros. a dieta residual é só o suficiente mínimo para mantê-los vivos.


eu não entendo porque ele não pode simplesmente tocar violino com sua cabra numa corda. não lhe é permitido fazer tal coisa na rua, via pública: nem se os transeuntes jogarem moedas. nenhum de nós pode, ocupar as ruas dessa forma e ainda sair atirando moedas, poluindo o espaço urbano. não sem um aval muito bem explicado, assinado, firmado e autenticado. muito menos desprovidos dos documentos de identificação. é, essa história já é antiga. ouvi dizer que agora essas coisas todas estarão implantadas num chip subcutâneo ou gravadas a laser na íris. identidade, cartão de crédito, ficha policial, tipo sanguíneo e parente mais próximo, itinerários dos ônibus tomados, aparelho telefônico com agenda para 1200 nomes, a coisa toda, completa. o que vai ter de gente tomando tiro no olho...

l'univers V



'a matéria em situação de equilíbrio é cega, cada molécula só lê as moléculas mais próximas que a rodeiam.' o não equilíbrio, pelo contrário, leva a matéria a "ver"; eis que surge então uma nova coerência.


adoro poesia.

atingir o equilíbrio é a morte térmica - a morte é o único fenômeno realmente previsível, esse é o grande lance afinal, a iluminação. até o universo morrerá, o vácuo é a estabilidade total e final da termodinámica, lei regente do amor. lindo, lindo.

- continua escrevendo assim e você será uma lâmina, uma lamícula paralizada no espaço-tempo. uma leitura datada. you dig?
- ah, foda-se. eu acho interessante fazer parte de uma época e um espaço minimamente delimitados. e de qualquer forma não tem muito como fugir disso. é presunção demais para mim querer escrever um lance universal, atemporal. nem da vinci é atemporal. ele está atrelado a uma porção de coisas que têm datas e endereços bem definidos e é bem por causa disso que o reconhecemos.
- ah cara, não estou falando para você ser o da vinci nem o zaratustra, calma lá. é só um toque pra você pegar mais leve nessa coisa de baga, monstro e super.
- mas bila, eu não escrevo assim, eu falo assim. não confunde as coisas: o que se passa sob minha caneta não tem muito a ver com este copo de vodka, no fim. é todo um outro lance, na maior.
- tá, ok, entendi. não precisa estressar também. quer saber: acho infinito.
- que, universo? arrasa.

29.8.08

'se isso faz você se sentir melhor, eu estava usando meu broche preferido: um camafeu verde com moldura e busto dourados.' a verdade é que eu já havia perdido o camafeu uma vez, sempre fora o meu preferido desde que o comprei, e já tinha estado triste e recuperada de sua ausência, então não senti muito quando o perdi de novo. desta vez foi de vez. mas isso não a fazia se sentir melhor, a amiga. junto com o maldito broche tinha sumido seu paletó de veludo, presente da avó. não se usa as coisas das pessoas assim. poxa, você já levou um cara para passar a noite com você lá, e não tem problema, já tinhamos até conversado disso, trepou na minha cama e ok, mas se vai usar alguma coisa emprestada pelo menos toma cuidado.
- olha desculpa, perdão, eu não sabia que era coisa da sua vó, eu sou mesmo uma filha da puta mas não fica com raiva de mim por isso.
- não era da minha vó. ela me comprou. em buenos aires.
- ah, não era dela, dela? menos mal. mas pode mandar fazer um por minha conta.
- porque você não enfia essas desculpas no seu cu? sem lubrificante, porque as mulheres devem dar o cu sem lubrificante para ser real. algo a respeito da dor no parto e longas gripes.
- olha, não há necessidade de chegar nesse ponto, joana. afinal, era só um casaco. eu já pensei em uma porção de roupas pra te dar, além de uma bolsa que eu sei que te interessa e só precisa de uns reparos no sapateiro.
- o que você espera que eu faça com esse amontoado de copisas usadas das quais você ia mesmo se livrar? você é mesmo uma vaca folgada e sem a mínima classe, carina. e pode parar com isso antes que eu enfie a mão na sua calcinha, você sabe bem o que eu posso fazer com a minha mão aí.
- não sei não, sua prostituta mimada. tem algo a ver com mamões? eles são tudo o que me interessa sexualmente agora.
- te amo amiga.
- eu te desprezo.

27.8.08



sociedade de controle e do espetáculo, a gente é mesmo um monte de merda ultimamente - tanto que nossos rótulos são sofríveis como estes acima. e nem ao menos chegamos a falar de raposas, não, serizinhos lascivos. por algum motivo maluco a chama da vela repele a ponta do meu minúsculo cigarro, negando-se a acendê-lo. até a flama pode agir como um moralista: não, não fumarás em ambiente interno e me recuso a elevar qualquer matéria! saia à rua mas antes termine seu drink; ele não será permitido lá fora. a diversão será somente subirmos uns nos ombros dos outros formando uma sorridente pirâmide com músculos bem torneados, besuntados com óleos almiscarados, bundas absolutamente irresistíveis. qualquer um desejareia ter um pau para cutucá-las.

eu, se tivesse um pau, assim de repente, foderia primeiro um mamão. macio, gosmento e deve ser uma ótima sensação todas aquelas sementinhas suculentas, mesmo que fria a temperatura ambiente. acho uma boa primeira impressão, e gosto mesmo só de imaginá-la, esta cena. talvez as frutas sejam ainda mais quentes em seus interiores antes de serem abertas. essa nova perspectiva faz a impressão soar bem mais interessante - mancho o papel de magenta num espasmo. só magenta não, era uma mistura dele com carmim e amarelo profundo. uma cor muitíssimo viva.
eu sei, carrego comigo todo o tempo, mas quando paro pra pensar um pouco a respeito a idéia de possuir um documento de identificação eterna é um tanto revoltante. é como uma parte dessa recente barreira contra os fumantes e os que bebem. querem segregá-los, mesmo que estejam dentro da mesma pessoa. vamos logo nos esfregar em óleo antes que comecem a anotar nossos números.


me dê um pouco de palha para incendiar o mundo. mas não me olhe assim, por favor. também preciso de alimento. há um mês não vejo os landers. essa história de andanças e ventania. de onde estou agora tem-se uma ampla vista da cidade, o que é legal e raro, mas todos os prédios em volta são feios. esta rua é cheia de árvores, então quando vou à sacada do décimo oitavo andar prefiro olhar para o chão.

sabrina é uma maluca. não esqueça de trancar a porta quando sair! ela se diverte à noite, começa só, se embebeda com mojitos porque é louca por hortelã e dança freneticamente, flertando com tudo que é movente (pois ela ama tudo o que flui). ontem ela perdeu mais uma jaqueta e ganhou novamente o mesmo homem, que fuma com gestos de gato. só agora, já a terceira vez, reparou que os olhos do rapaz são claros. os teus também são, ele respondeu. foi a primeira vez que se viram à luz do dia. sabrina gostaria de não ter sido um pouco teatral, porque quando o teatro perde o charme fica sempre uma situação ridícula. quanto a tudo, joga a mais recente do desculpa do estou indo embora desta cidade, talvez de uma vez. costumava se arrepender de uma porção de coisas, sabe-se lá do que sente tanta culpa, porque afinal ela vai morrer e não saberia como lidar com tudo o que não foi feito.

l'univers IV o tempo X

o tempo é a nossa dimensão existencial e fundamental, disse o prigogine. estamos na merda, ela não podia suspirar nenhhuma outra coisa depois de ler isso. sempre temeu o tempo como a um demônio, e então se submete como a um deus desconhecido. nada é mais inumano que ele, pertencente às dimensões que não nos compete e à mais complexa cosmologia. somos a impossibilidade de uma seta do tempo reversível - jamais poderíamos envelhecer ao contrário. há como sermos menos divinos que isso? põe uma peça de biquini na maleta e vai para a praia.

10.8.08



se apaixonou por um corredor. é horrível, na verdade: piso frio branco do chão ao teto, frisos de alumínio nas quinas dos degraus - tem uma escadinha fajuta - um corrimão gelado, bastante estreito no geral e com um cara imenso numa das extremidades, de terno preto. obviamente não na extremidade que lhe interessa. é um tanto esquisito. porque no primeiro terço do corredor tem uma porta preta que dá nesse lugar completamente outro, tudo preto, muita gente, música, bebida, fumaça e risadas. tem essa garota que não sai da pista de dança - ela sempre acaba a noite de manhã com os cabelos molhados. o corredor é uma avenida solitária.

8.8.08

l'univers III bestiário VIII

os exageros só servem para os romances. o universo e o espírito são incompatíveis? o universo ainda faz mais sentido: raios-gama, matérias desconhecidas, todas aquelas probabilidades de emissões de energia aniquiladoras, capazes de enfim dar um fim a nós mamíferos ou qualquer outra classe com que estamos acostumados. apaixonados. nem mesmo os répteis ou insetos. nenhuma espécie de bicho rastejante, muito menos voador. não há nada vivo mais horripilante do que os bichos que voam, especialmente os médio-pequenos: mariposas e passarinhos, tão frágeis quanto o verdadeiro horror pode ser. o péssimo odor das penas de galinhas molhadas. não sei dizer se o fato de estarem mortas influencia nisso, ou porque elas são escaldadas em água fervente. como nenhum desses raios nos atingiu com força desde o fim dos dinossauros? o fim da terra e de suas raças é bem concebível e justo. mas eu não consigo imaginar o fim do universo. porque ele uma hora acaba e então o verdadeiro vácuo e é isso então: o verdadeiro vácuo. sem partículas ou energias.

4.8.08

você tem razão, porque à noite a gente fica perdido. eu fico à noite só, e sei porque há muito ela tem deixado o corpo horrível. ninguém sabe? ora. qualquer um sabe o que é ser a pior pessoa do mundo, o que sou esta noite. a sensação é a de que alguém jogou tinta - tinta não, cola. cola de sapateiro, por puro ódio a qualquer próximo. se bem que ao menos nos servem mexilhões: os laranjas são as fêmeas, e normalmente são os maiores. suspiro. desde quando um código de honra é seguro? o quanto a honra e a nobreza podem distar da moral - eu digo muito, infinito. estamos atolados em um tufão de camisinhas.

nunca sair do barco. absolutamente correto.

só trará dor de cabeça e uma possível satisfação por viver. mais seguro: nenhuma satisfação e nenhuma dor de cabeça, para ninguém, como desejaram os comunistas. este era o fim do rio.

nada bom poderia vir disso. o horror é para sempre agora. então é isso o que buscamos, com os pentelhos tingidos de sangue?

3.8.08



e é isso. fugimos à nossa maneira. ele, amante da estabilidade, em 30s estava com uma namorada. eu, seu completo oposto, do fogo e tal, arrumei um amor a cada 2 dias. todos fabulosos a sua maneira. nenhum como ele. e nós dois sofremos por nossas escolhas, tão necessárias. ou isso, ou a morte lenta, e ninguém almeja a morte lenta - sempre dor além do necessário. caramba, caramba, o que fizemos. senhor frederico, tua ajuda por favor. teus conselhos, tua fuga. pois para um clima seco eu devo ir - e as coisas boas do gênio devem provir dos climas secos.


cada vez que eu olhava o quarto as paredes ficavam mais estreitas.
esse é o nosso lance e eu o compreendo como um homem - pois apenas sendo um homem se entende outro. que a política fique para os que se apaixonam por ela. o fato é: sim, os homens e mulheres têm uma coisa toda diferente, estamos cansados de saber disso mas tentamos ultrapassá-lo a qualquer custo. sim sim, os empregos e os salários e a violência, isso é tudo uma linda vitória, mas a questão das igualdades acaba por aí. assim como um homem, eu desejo a solidão ao mesmo tempo em que cativo uma matilha.

assim como uma mulher, refaço sempre uma manta de desperdício, já desejei uma besta vingança, e de tudo isso genialmente escapei. os gêneros são um acúmulo de besteiras que pode se reproduzir. um viva ao corpo.

1.8.08



caramba. o que estamos fazendo.

no auge da força, de vida e procriação e todo o resto, e o que estamos fazendo? tomando um vinho sul-africano numa noite muito quente de inverno - porque essa terra não tem inverno, tensionando os ombros repetidamente, o vinho também está quente e. se comunicando das maneiras mais imbecis possíveis porque temos que formar uma espécie de matilha apesar de preferirmos a solidão. aprendendo a distribuir sorrisos e sustos, comentando sobre os filmes em cartaz, essa merda toda já foi analisada mil vezes, não há nada mais à acrescentar: fim do mundo por aquecimento e falta de cuidado, a humanidade sempre em declínio, tanto quanto as formas de comunicação se enriquecem, se renovam e crescem. uma ova. ninguém fala mais isso: uma ova. aí, quando menos percebe, estamos tomando vinho quente e voltando à velha história - esse é o sentido da vida. o mais completo tédio e as artimanhas vitais para amá-lo.

31.7.08



socorro, socorro de novo. não posso deixar que este louco me leve. passou os útimos meses se livrando de toda lufada de ar espesso, qualquer coisa que estivesse muito próxima do chão. insuportavelmente seria esquecê-la de novo - então ele foge para isso, para o desembaraço total e esquecimento. lama seca intransponível. como se houvesse algo assim. olhando pela janela, as luzes da fábrica à frente sempre ficam acesas, e esta terra não tem verão. lembrou dos páraquedistas caindo no mar, uma das cordas se soltando e ela em queda livre, totalmente destroçada. ninguém soube mais que o rapaz a ladainha do é possível, estamos bem. repetida à exaustão, funciona como um bom paliativo - um som tão enfurecedor que é impossível outra saída, outro subterfúgio para a vida. sempre difícil renascer e riscar linhas retas quando se pretende desfazê-las.
e como serão as pessoas neste outro lugar, espécie de cidade vermelha. às vezes pensa que gostaria de estar indo para alguma ilha ou pontões à beira-mar. teve seus melhores momentos em lugares assim, e alguns entre estes são as coordenadas de onde morará um dia, ao menos por três meses. desfaz os nós dos cadarços, renuncia ao pomo de adão e assume tudo o que acontecer - estamos aqui para rir disso.
se sentou para arrumar suas fotografias, precisava achar algumas de boa forma para o evento. nada que tivesse vestígios dela. em uma das fotos em que aparece melhor, descontraído, cabelos bonitamente bagunçados, até a coisa de luz e sombra estava boa - conjunção rara para essas com erro de paralaxe - mas depois de uma auto-examinada inicial e aprovação, notou: o corpo dela cortado, afundado na sombra, o rosto não aparecia mas o corte acabava bem no meio da virilha e ela usava um biquini azul. caramba. pensou em tirar fora uns trechos da imagem, mas já estava tudo estampado: não poderia olhar para a foto, ali no meio da celebração do casamento, e não se lembrar do dos cortes envolvidos: um na virilha, e outro na mulher toda. mas tinha um guarda-sol tão bonito, e ele gostava do efeito de cores de guarda-sóis quando viram imagens. a maioria delas eram em praias - e de fato acha que é um cenário favorecedor, sua pele se destaca na areia e a areia tem todo aquele volume que dá uma textura bonita, etc. mas a maior frequência, na verdade era que todas haviam sido tiradas por ela. tirar fotografias, é uma expressão sem sentido. nas em que aparecia sorrindo, eram de umas viagens boas. para cuba. tem uma bem interessante entre essas, mas está péssimamente vestido, com pochete marrom-bege e calça branca. é, horrível. eles estava bem felizes esse dia depois de conhecer aquela escultura do cavaleiro e um tipo romano seminú com escudo redondo. que músculos! outra, sentado nos canhões. algumas nas cataratas, de cabelo maior. e as dos anos 90, todo mundo feio. os piores óculos que já teve na vida.

30.7.08



caramba. parece que ele tem que ler nietzsche 3 vezes ao dia, mais o remédio, para não começar a se sentir um idiota. até hoje não acredita que deixou aquela garota escapar. aquela mulher, one solid fucking woman, que chegou a odiá-lo na época da fuga e um pouco mais. depois disso, se afogou em vinhos tardios - ela - e dança, muita dança.
decide ignorar os amigos e passar a noite só, tentando fazer mais algumas músicas. mas sabe que está todo prejudicado pela memória e que não faz nada de bom há um largo tempo, nem mesmo um desenho. parou também de desenhar, se bem que ainda lê. largou os bons romances e se cansou da maioria das outras coisas também, mas tem lido uns livros de jornalistas - que são como documentários sem imagens.
assiste um pouco de tv sob o edredon após folhear um pouco textos sobre músicos negros, mas não consegue se fixar em nenhuma fala específica, porque uma história fica sendo contada e recontada na cabeça, cada vez com diálogos e cenários diferentes, o rosto então, nem se fala. a memória está toda prejudicada. sabe descrever bem as feições da mulher, mas fixar seu rosto na cabeça é tarefa impossível. movente. e ele imagina que ela está por lá, falando uma língua que lhe é estranha mas bem sonora, voltando à pé às 5h das manhãs.


acordou de mais um telefonema. quando deu por si, de novo: estava falando como se fosse uma estranha com alguém que nunca havia visto - mas vivendo completamente sincera um lance de outro nome - diferente modo de se expressar - até um tom de voz todo outro. que diabos, a maldita memória. me pegou de novo, pensou. felizes são aqueles índios para quem só existe futuro e não-futuro, meio menosprezando toda aquela putaria que não o fosse, e que diferença faz na verdade se é tudo movente? levantou com uma ansiedade, passando as mãos do ombro aos quadris com uma força desprovida de sensualidez.

foi para o fogão, ligou a chama da boca menor com a faísca de um isqueiro sem gás, acendeu o toco do que havia sobrado com cuidado para não aquecer demais a ponta do nariz e ficou um tempo ali esquecendo a palma das mãos, alternando-as com o toco.
caramba, esse doce é horrível. mas depois de todo aquele caso feito, vou ter que comê-lo inteiro. é até meio besta escrever assim - comê-lo - me sinto tão antiga, pensou. sempre ficou na dúvida entre abraçar ou se livrar do espírito de XIX, então decidiu por viver dos dois jeitos em espaços de tempo diferentes. dá um certo descompasso que não a deixa realmente terminar nada começado - na realidade já aceitou isso também, as coisas são uma grande continuidade umas sobre as outras, não haveria mesmo modo de terminar. e dizer parla, é isso e é certo. impossibilíssimo, pensou.
largou o doce, ela prefere as ameixas frescas. ah, eis o homem. cadê? entrou de novo no estado de anônima e voltou para casa à pé, às 6h15, com a bolsa meticulosamente bem checada e, abrindo os olhos após acordar de mais um telefonema como petra, viu: caramba. os discos.

28.7.08

bestiário VII

eu apenas ataco coisas que são vitoriosas -
caso seja necessário
eu espero até que elas sejam vitoriosas.
(...) atacar é uma prova de bem-querer em mim e, conforme a
circunstância, de agradecimento. eu honro, eu distingo com o
fato de unir meu nome a uma coisa, a uma pessoa: contra ou a
favor -- para mim não importa.

f.n. - ecce homo
sempre um filho da mãe nobre.

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o rio de janeiro?
está ótimo. até agora não encontrei nenhum réptil ou anfíbio, especialmente aqueles com que estamos acostumados a nos deparar em são paulo. vi sim: um pavão que protegia seu ninho a chutes, uma garça, marrecos duelando lum laguinho lamacento, uma galinha d'angola - sobretudo, aves - um cisne num filme, um sagüi num sonho e um cachorro com conjuntivite na porta de um restaurante com ótimas sobremesas - ele tremia de frio, - estamos num alto vale entre montanhas ou morros - o ar está seco - minha boca rachou ao meio.

ah, as duas? só reclamam.

25.7.08

l'univers II



mas então, perguntou ele com calma fria, o que há com toda esta história de carreira - é realmente necessário ter uma - o que é que estamos fazendo com as nossas vidas desse jeito? tem uns caras que sobreviveram sem se debruçarem sobre uma dessas, e ainda num nomadismo sem grupo.

- é, tem essa minoria. mas a maioria dos vagabundos e viajantes sem emprego ainda é apenas alguns vagabundos viajantes; as bocas cheias de formigas e mel.
- e a maioria dos funcionários são funcionários e só, as gargantas cheias até o sino de areia. e o que eu não entendo é porque nos parece tão vitalmente importante sermos uns desses. mas não estou entrando na questão das roldanas, engrenagens besuntadas de petróleo aqui; isso já foi mascado e cuspido, tanto. o grande lance é: e o que fazemos com os animais e a sede?
- olha meu querido, meu reptilzinho úmido, fruto de uma terra tão fértil, solo do plantio de macadâmias: é melhor não entrarmos nesse assunto de universo, vidas no não-vácuo e aniquilação por raios gama escapados da morte de estrelas monstruosas. só te alerto de antemão, já que sempre começamos com lamentos profissionais e terminamos atolados até o pescoço com a imbecilidade nossa, e o tempo e o cosmo. sabe, eu tenho um mês duro pela frente e não posso desperdiçá-lo pensando na nossa mais completa insignificância. já te disse bem como meu chefe tem pegado no meu pé.

21.7.08

o cotidiano II



ele se encontra lá, na sala, à espreita, miserável, mau-humorado e abduzido. tento sorrir e provocar uma espécie de higiene budista, pois acima de tudo temo por ela: que precisa de apenas suaves doses de liberdade e apreciação para alguns momentos de plenitude, tão sinceros e justos. por negar-lhe isso o olho de soslaio, com uma espécie de desconfiança - de que ele não será suficiente para mantê-la feliz, apesar dela precisar de tão pouco na verdade, como flores brancas num campo muito amplo e abelhas em estado larval. e isso me dá um certo desamparo pelo amor e pelo futuro, já que apesar de saber que ele poderá sempre existir (o amor), não sei se algum dia deixará de ser imaturo - nele, os humanos se encontram em seu estado mais bobo, se mal dosado - e fonte de diversas privações, jesus, tão tolas.

-
santo de qualquer coisa, me liberte dos adjetivos e advérbios
pois de sua tentação sou incapaz de fugir.

17.7.08

bestiário VI



hoje a madrugada está cheia de vozes. a atmosfera sempre fica anuviada nessas horas. como dois leões latiram bem e insistentemente, mas quem tinha juba era a fêmea e quem mascava a pele era o macho. depois de ter levado umas machadadas no esterno ela ficou assim, transitando entre a amnésia e o anonimato, colecionando números. a memória teve de criar suas linhas de fuga tangentes ao cone, se alimentando apenas dos lobos. e aquele rapaz é uma ótima sobremesa. é tocada por seus olhos de áquario e fica maravilhada com a pelagem, que cresce de baixo para cima enquanto ele a sorri. dois dias depois e ainda não recobrou a força nas pernas. um bom duelo entre cavalo e cavaleiro, sempre alternando as selas.

bestiário V



o que é por essas coisas não sabe. acontece: um mais novo jovem gato a invade, mas não a conhece, e é por isso mesmo que gosta. verdadeira espécie felina com a voz mais bonita entre os rapazes que conheceu. é a voz que não pertence mais aos rapazes pelo tom. diz gostar das suas pernas e soa muito bem quando constata a lembrança de uma das poucas falas dela - eu uso grampos, e eles estão todos na sua cama. lá embaixo a música continua muito alta e boa, mas mal consegue ouvir. já se despediu, um pouco menos anônima, mas deve voltar. à noite não consigue tirar dos olhos as mãos em seu tronco, então virando de costas - e, sozinha, espalma com força o lençol da cama com a imagem e erguese pelo quadril. se mia revê-lo a morder.

16.7.08



eu gosto do som da minha unha se desfazendo. chegar em casa mais uma vez àquela hora e comer os bombons que foram presente. todos deviam falar karitiana, pois eles têm o futuro e o não-futuro, que não se distingue dentro de si. aprendi e felicitei a humanidade por ter ainda possibilidade, e a linguagem é entre as melhores daquela - nem vou chegar a dizer que é punhado de vírus pois tantas coisas os são. e nos encontramos vivos por cada vez mais tempo, desfazendonos como unhas.


para lelê, aquela que chamam de xota.
põxa.
me contou o que é um morfema.

15.7.08

pax im todestripliebe



sonhei com pingüins em conserva, mas se pareciam com pequenos patos. esta noite também acordei no meio com a camiseta molhada, aquela azul da pantera, pois mais uma vez chorei subindo a ladeira. estou aliviada de sorriso e melancolia, enfim em paz. e a melhor maneira de carregar um amor é mesmo detoná-lo a machadadas - assim saímos da coisa mas não totalmente, com um sentido a mais de bravura. e a paz é por saber que sempre me haverá aquele inimigo, o maior de todos. por mais que eu venha a inventar novos ao longo do caminho. mas, no entanto: o que foi que fizemos, meu deus? que chova uma tempestade por nós.

13.7.08

bestiário IV



as funções de hoje: mergulhar na banheira com gelo, parar de escrever livros enquanto durmo, ascender a árvore do avesso, resgatá-lo do creme brulée, pensar na dor do pato - aquela forma criança de voar, e atravessar sem olhar. e por estar num lance de me desfazer, concorro a carros roubados por quem pensa que levo o Nada a sério. permaneço intocada por esperar que cavalos se comportem como felinos, mas a verdade é que eles têm mesmo 16 patas, em desafio ao Tempo. então alguém diga a seu amigo que é sempre mais interessante brincar com vértebras antes da próxima aurora, por mais novas que elas sejam - pois do que nos adianta escrever como se estivéssemos no XIX, se estamos aqui tão descrentes no vinte e um?

alguns passos de hontem: os alarmes dos carros piaram. o meu colchão se afundava ao centro. sob ritornelos adormeci para não fazer da noite uma perdida ao voltar de novo cambaleante - do velho ao antigo, em passos de ancião. o tiro, disse o doutor, foi no coração, mas juro que vi o sangue aflorar da cabeça.

9.7.08

um inimigo I



numa provação
tanto casta e devassa
como provocação
masco os anseios que
em mim inflige
- o inimigo

destroço seus dentes
em sonhos
os mastigo.
ademais vos digo
que ele se morde
em ode ao medo
que o aflige
e em devoção deste
mesmo me inflige
uma desordenada
punição.

bestiário III



tudo o que acontece no presente passa por todo o conjunto da memória. o ponto de jorro do presente é habitado por lobos. todos os lobos adormecem ao cessarem os uivos. cada noite ouço uma explosão nos arredores do meu quarto. os landers passeiam incessantemente sob cobertores no escuro. a cada passada na calçada ouço o fervilhar das palavras contrabandistas. alguém um dia viu minha figura projetada no asfalto. às vezes as reações químicas se desequilibram, e isso é um problema da termodinâmica. eu sempre quis poder sabotar os preceitos da física. todo esse papo de universo me faz desejar muitas responsabilidades para tirar da minha cabeça a liberdade. um rapaz com dentes magníficos se esgota em coisas que não me interessam. prefiria ainda que gotejasse sobre mim.

das ist fertig.
c'est fini, o infinito.

8.7.08

bestiário II



me embala numa espera tola da cantiga que não me existia, ladainha que os bichos consideram perversa - entoada nos segundos entre o sono dos sólicos e a aurora dos notívagos. não entendo, menina que me pensa, pequena virtuosa das coisas fugazes, esse nada que o rapaz deseja e mia tormenta tornada vermelha após um breve_calmo verde. aguardo apoiando a palma num espeto, afogada por sonhos etíopes (minha pele abriu os olhos toda úmida esta manhã), e enquanto ele persegue seu esgotamento entre vídeos e textos, não percebe que vou atrás deste mesmo em quando danço até que mesqueço.

um viva ao desperdício de energia e ao total desequilíbrio termodinâmico.

4.7.08



II

Ver-te. Tocar-te. Que fulgor de máscaras.
Que desenhos e rictus na tua cara
Como os frisos veementes dos tapetes antigos.
Que sombrio te tornas se repito
O sinuoso caminho que persigo: um desejo
Sem dono, um adorar-te vívido mas livre.
E que escura me faço se abocanhas de mim
Palavras e resíduos. Me vêm fomes
Agonias de grandes espessuras, embaçadas luas
Facas, tempestade. Ver-te. Tocar-te.
Cordura.
Crueldade.

H.H. - do desejo.

30.6.08

o tempo IX



como a primeira visão de um mundo em que a nave aterrisa.
é assim que o paraíso deveria se parecer para as almas, as recém-estrangeiras, pensou. passara os últimos meses de muito frio em paris, onde o céu, como era baixo. sem vestígio de auroras. e agora aqueles quilômetros todos de praia, ladeados por dunas, árvores numa composição puramente nativa. nenhum paisagismo. então, o paraíso.

imediatamente tirou todas as peças de roupa - ele era especialmente deliciado pela sensação de nudez, sempre que possível. fazia um extremo calor, aquela coisa de raio laser em climas temperados, e a água tão fresca, mais que isso, gelada mesmo. de início, ficava boiando (sem dúvidas com a barriga para cima, pois o sol acariciava bem o rosto constantemente umedecido). como é gostoso - a vida.

ficou ali um tempo com o clima em mudança.
uma das ondas que começaram a se formar veio um pouco mais forte, e ele foi engolido, saboreado pelo mar. aquelas vezes em que não há a menor referência para equilíbrios, as areias invadem os cabelos, respirar não é uma possibilidade. um caldo daqueles. levantou finalmente, depois de muito segurar o fôlego, e cambaleante ficou por um tempo ainda com os pés no mar, pequenas ondas batendo. um verdadeiro dueto com um gigante.
e percebeu como é bom - a vida.

13.6.08



malest cornifici tuo catullo


i'm happy, kerouac, your madman allen's
finally made it: discovered a new young cat,
and my imagination of an eternal boy
walks on the streets of san francisco,
handsome, and meets me in cafeterias
and loves me. ah don't think i'm sickening.
you're angry at me. for all of my lovers?
it's hard to eat shit, without having visions;
when they have eyes for me it's like heaven.

SF 1955

* * *

[blessed be the Muses
for their descent,
dancing round my desk,
crowning my balding head
with Laurel.]

* * *

A.G.

---

ontem eu fiz um inimigo.
caramba, não consegui dormir de noite.

29.5.08

les temps des assassins - o tempo VIII



a coisa é: "e vivemos demasiadamente no meio"


colho aforismos da aurora como pétalas para as horas, e então me encontro deitada como o cavalo sobre o pano vermelho, no canto. colho e, ao invés de me sentir completamente idiota, rio e a água me transborda - é tão confortante compreender a energia arrebatadora de momentos, e como uma suposta eternidade só seria a mais penosa das prisões. assim, tento me apaziguar com o tempo.

23.5.08



tão completamente me fez prometer: i am never going anywhere, apesar de saber que precisava ir a todo lugar além de aqui. desde que, contra a vontade, tive que quebrar essa promessa, levo o lema da minha fidelidade ao extremo oposto: eu nunca vou ficar em lugar algum. meti tudo em quadrados, os que não entravam em quadrados despachei por 7 outros lares. agora, em cada abrigo em que me estaciono por mais de duas horas já chamo de minha casa. ontem morei num ônibus.

8.5.08

patinadora - bestiário I



zeusus, como eu gosto de fotografar através de cortinas.
cidade creamy via láctea, prédios feitos de leito morno e mel.
tenho que ir pro centro agora.
mas fico atada neste tapete que não é meu,
está no chão,
derrubo migalhas
e nossa, como é aconchegante.

é uma luta entre os bichos-tempo:
sem meio-termo, fico tempo_guepardo e tempo_lesma.
damn you chronos. tenho fobia dos relógios.

ontem mesmo falava e me descobri a vocação: minha melhor prática é a auto-sabotagem, disso já sabia. e o futuro do corpo por agora é buscar prazeres da miséria, sabe eu me sinto tão bem sem uma casa na verdade. me dá um semi-sorriso e um pouco de culpa. pura bobagem. quero me desfazer de tudo, como tenho feito há um tempo, pois aqui não é o lugar de construir - aquela coisa, correndo sobre o mel. eu não sei direito, o corpo anda sozinho rumo a tânger.

assim, não há culpados para a nossa tragédia. nada podia ser mais errado, e apesar de já pensarmos o contrário disso, eu e ele nascemos para ser tão distantes quanto as extremidades que uma reta permite. preciso desmontar tudo e caminhar sobre os cacos enquanto ele mergulha de cabeça no mel, construindo um palácio sem rodas.
abençoado por chronos, seu deus pessoal e íntimo,
e a serpente-schlange, meus maiores inimigos.

7.5.08

mano negra



eu odeio mesmo ver tua mão nas dela

tua mão demente, repulsa
que me apertava o peito com tanto músculo
ali, bem entre os seios
dor logo acima do esterno, sabemos bem
como sabem todos os que foram amantes.

cerco em rios gelados este aperto
como mastigar cacos de vidro
boiando há dias em anestésico.

não importa a tua casa
e muito menos quando ocorra
mas como foste o primeiro, quente gatilho
te dedico minha morte, tum deus de merda.

22.4.08

niente / für immer / 2012




hoje teve um terremoto.

eu, não senti nada. niente. nichts.

bis jamais-jamé.
bis bald, wiedersehen.
wiederfehlen.
wiederfühlen
weiter flieBen
e eu amo tudo o que flui - toujours.


quadrados




Nós vivemos uns em cima dos outros, literalmente empilhados, nas mais diversas configurações que os caixotes permitem - perímetros, pés-direitos, $/m2, sancas, cômodos e cortinas são alguns dos itens de diferenciação. Num só relance e tuuuum, um túnel bem focado nos mostra o caminho até a cozinha do vizinho da frente, cabelos sendo penteados, luzes de tons tv-azulados a abajoures-avermelhados, mesas postas, as reformas e geladeiras providencialmente colocadas na sala, se vê bem mais que sexo, e aos montes, explícito.

Eu, na morada atual, gosto de presenciar relances de uma família de judeus ortodoxos que assisto da janela da cozinha. As crianças sempre de alfaiataria, não importa o calor que faça tem alguma peça preta pesando sobre elas. A mãe com uma touca escondendo o cabelo. Nunca vi o pai, mas sei que ele existe. Eles fingem não me ver, é a extrema educação, claro, e assim me sinto mais à vontade em olhar fixamente, sem virar o rosto. Nunca tive muito pudor com janelas, mas em respeito a eles sempre vou para a cozinha de soutien ou numa toalha quando me levanto para o primeiro copo de água, meu único ritual.

Estamos aqui, milhões, uns em cima dos outros. Unhas de cachorros no meu teto, minhas passadas leves no carpete de madeira faz o teto da pessoa de baixo. Eu procuro sempre tirar o sapato quando chego ou caminho depois das 22h.

E o estranho não é nem somente que não saibamos o nome de ninguém, de ninguém dessas pessoas. Nomes sempre podem ser mudados e renovados, e no fim, quanto mais íntimos ficamos, sintetizamo-nos às iniciais, pois dar um rosto a uma solitária letra só pode significar alguém que se conhece muito, e a letra fica forte, maior que o nome todo. É que, por mais que toda a racionalização da habitação urbana faça o maior sentido do mundo, é uma coisa mesmo bizarra viver encaixotado em vitrines.


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