o rapaz na minha frente pedalava como quem tem o coração partido, descambando pra todo lado, tropeçando escada abaixo. eu ia tão certa, tão direta e forte que percebi que meu coração já estava bem remendado a essa altura. até tirei o capacete. umas folhas caíram no chão e eu segurei no guidão com mais vontade, pra me certificar que nada havia quebrado de novo. calejada que nem! com o dedão já machucado. o bosque tinha umas árvores tão alinhadas que me deu medo da stasi - isso era do lado de fora do muro. ultrapassei o mesmo casal de velhinhos vinte vezes, sempre aquela senhora japonesa. sentei à beira de um dos lagos pra comer minha maçã, mas não estava quente o suficiente pra um mergulho. não vi cobra em lugar nenhum, tudo tranquilo. tantos lagos por esse caminho: uns enormes, com iates, uns cheios de musgos, outros cercados por arame e umas flores com mais amarelo do mundo. me enchia de certeza e gratidão quando via mais uma daquelas setas brancas pixadas no chão. eu sorria pra todo mundo que vinha de encontro, pois só depois de velha aprendi que esse é mesmo o melhor modo e o mais simples. não me senti boba nem nada, só translúcida.
25.8.13
18.8.13
a morte e o desaparecer
nunca ninguém me explicou o que era a morte. pais ateístas, tudo que aprendi sobre a morte foi em filmes de terror que via por brechas de portas, sentada nos últimos degraus da escada da freguesia do ó. pra mim, morte sempre foi sangue. meu tio, aquele que me deu um bezerro, morreu com um tiro no coração. eu estava comendo beterraba, vomitei. sem julgamentos dos seus atos terrenos, ou anjos da guarda ou almas penadas, só o sangue escorrendo até o corpo ficar seco e a pessoa então sumir. pensei em quem ia cuidar do bezerro agora, se ele também ia secar. então eu me lembro de quando minha mãe nunca me contou sobre morrer.
minha avó me levava pra passear no cemitério de caieiras. ele era muito antigo, meio abandonado, com lápides quebradas e esculturas encardidas. cercado por pinheiros. eu gostava de rolar na grama ali, porque tinha um declive. e dos anjinhos: ela me explicou que eram crianças mortas, mas eu sabia que elas só sangravam e viravam flor e mato e ponto. queria tentar enxergar os ossos pelas brechas nos túmulos. gostava da idéia dos ossos, mas morria de medo dos santinhos impressos em papel barato com orações macabras no verso. e mais do que tudo, tinha pavor daquela parte do ave-maria que rogai por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte amém - e isso repetido à exaustão, mas porquê um mantra desses!
Third improved papertiger not afraid of repetition
"when once again you are standing under a foreign blow dryer and do not know how to compress time and think that going shopping is something useful and if you would like to find something original, buy Rum Phantasia for someone. then, the someone won't have the responsibility, and you have not burdened yourself either. (of course, one can buy flowers, and maybe for a woman who lives on the way home so you don't have to carry the flowers so long)."
- Martin Kippenberger, 67 Improved Papertigers Not Afraid of Repetition
14.8.13
sie wollte nach oben (tola)
então tá. guardo os dedos na ante-sala, escondo o anel que confunde a vista. trinta e seis modos de ver o fim de tarde - o céu mercúrio ou o peixe morto, etc. escolhi direcionar o olhar para cima, por motivo de precisão mesmo. tropeço nas palavras bonitas, pulso fino, pernas firmes e bobas. de que me adianta a força, se quem controla a caminhada não é o músculo, mas a massa. saudades de falar assim, andar meio torta como quem não tem vergonha de carregar um peso do lado esquerdo. aprendi que os óculos de metal são um grande perigo, que rasgam a carne e o diabo, retalham o sobrecílio, que até aqueles apoios do nariz tentam te vencer pelo homicídio. vinte e sete motivos para morar entre a dúvida e a certeza, apreciar essa burrice com o maior carinho, passar as mãos pelos cabelos do arrependimento, porque só tenho um.
6.4.13
a coisa funcionava assim: marca de encontrar seus amigos na estação, mas eles embarcam no primeiro trem enquanto você ainda luta com a máquina pelo bilhete. espera pelo próximo e vai sozinha, sentada sobre as malas. no ponto certo da hora, abre uma das portas e pula no universo - aí só precisa escolher se quer voltar ao trem ou se vai continuar, ter o mini-orgasmo-sonho para depois infalivelmente morrer.
das três ou quatro camomilas que pularam, uma voltou ao trem e outras seguiram, passaram pelo atordoamento das estrelas, duas caíram já dentro de seus caixões neon de pvc, mas uma descobriu que se poderia sobreviver. andava pelo estranho vale pontilhado pelos muitos caixões espaciais em diversos formatos, até que ao fim viu outros como ela, que caminhavam ali numa alameda. nossa, pensou, mas são mudos! aí notou que sua boca caíra para fora do corpo e que as árvores já estavam peladas de maçãs.
das três ou quatro camomilas que pularam, uma voltou ao trem e outras seguiram, passaram pelo atordoamento das estrelas, duas caíram já dentro de seus caixões neon de pvc, mas uma descobriu que se poderia sobreviver. andava pelo estranho vale pontilhado pelos muitos caixões espaciais em diversos formatos, até que ao fim viu outros como ela, que caminhavam ali numa alameda. nossa, pensou, mas são mudos! aí notou que sua boca caíra para fora do corpo e que as árvores já estavam peladas de maçãs.
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