31.3.13

rio salubre, mar caído


















ai tropecei, e cabum, as pernas novamente tortas. já perdi as contas de quantas vezes tive que remover os cacos de vidro do joelho, estilhaço por estilhaço. eles se multiplicam por brotamento a expoentes geométricos, meniscos quadrados e a rótula já com uma dama carpideira. um mar salgado de muletas que não afundam jamais, pois o alumíno é tão leve quanto a dor de lado. um leve temor de olhar pra trás e ver exatamente quem eu queria, por isso corro como quem nunca. ai tropecei, e fiquei deitada.

 
















todos calmos, os pôneis amarrados dormiam em pé com medo de explodir, porém calmos. fora assim por 32 mil anos. as cabeças eram proporcionalmente grandes demais, e os ossos das ancas apontavam para o infinito. não comiam desde a ressurreição do bebê menino jesus. uma garota tentou subir e cavalgar em pêlo - ela nua, ele sem sela. os pêlos eram mais àsperos que aqueles de um bicho -preguiça, como agulhas enferrujadas. ainda assim, com tal falido experimento, os cabelos dela embaraçaram-se com os dele, a morte. outra saída não havia. encostou a cabeça cansada no travesseiro de crina e esperou, calma, até a ressurreição seguinte.

30.3.13

tarde em guimarães


















que me poupem as samantas de aventais, que me cheirem as canelas, e digo. sem medo, sem medo, portanto coragem de envelhecer, já que isso é a única certeza que existe sem pausa, sem mistérios, sem descontos para meninas bonitas. o vento úmido me enrola os cabelos de uma maneira torta, sem jeito, e de repente os velhos assoviam para mim. mais café com pão, então. mais pássaros voam e gritam aos bandos, já está perdendo a beleza do inusitado isso - pois poxa, por três dias seguidos a criança já se cansa do brinquedo. tudo aumentou um pouco de sabor quando vi os falcões amarrados em volta do moço com luva de couro, um pavor pelas penas deles assim presas. portanto coragem de descer a colina e fingir que não é.

casa de martelo




















meio envergonhada com as declarações desconexas de um músico que não deve falar nada além de tocar, o casal meio abraçado, o moço dedilha as batidas no joelho dela. como tudo se repete por todos os lados, ou é uma herança cultural? um cavalo espia por uma fresta na cortina de veludo, mas arranha o olho e desiste - deita no chão até finalmente explodir. as paredes e os números decidem virar de ponta cabeça, ou na transversal, não dá pra entender bem pois todo o movimento pára quando as colunas se encavalam umas nas outras, o caos. é o mal de um salão sem ângulos retos. lá fora os sapatos continuam molhados, sem indício de melhora.