31.8.08

landers - mitologias

os landers também são conhecidos por serem comedores de resíduos. funcionam como uma espécie de filtros de si mesmos, reutilizando seus dejetos como mistura para dar mais volume ao crack, e a queima disso ainda é usada como alimento depois. quando vêm pedir moedas para lanches e pacotes de bolachas é só porque gostariam de variar a nutrição, pois jamais passam fome com o processamento dos resíduos. claro que esse tipo de comida os deixa absurdamente magros, todos cabeçudos e com as costelas marcando as camisetas ralas - por isso sempre andam com mantas sobre os ombros. a dieta residual é só o suficiente mínimo para mantê-los vivos.


eu não entendo porque ele não pode simplesmente tocar violino com sua cabra numa corda. não lhe é permitido fazer tal coisa na rua, via pública: nem se os transeuntes jogarem moedas. nenhum de nós pode, ocupar as ruas dessa forma e ainda sair atirando moedas, poluindo o espaço urbano. não sem um aval muito bem explicado, assinado, firmado e autenticado. muito menos desprovidos dos documentos de identificação. é, essa história já é antiga. ouvi dizer que agora essas coisas todas estarão implantadas num chip subcutâneo ou gravadas a laser na íris. identidade, cartão de crédito, ficha policial, tipo sanguíneo e parente mais próximo, itinerários dos ônibus tomados, aparelho telefônico com agenda para 1200 nomes, a coisa toda, completa. o que vai ter de gente tomando tiro no olho...

l'univers V



'a matéria em situação de equilíbrio é cega, cada molécula só lê as moléculas mais próximas que a rodeiam.' o não equilíbrio, pelo contrário, leva a matéria a "ver"; eis que surge então uma nova coerência.


adoro poesia.

atingir o equilíbrio é a morte térmica - a morte é o único fenômeno realmente previsível, esse é o grande lance afinal, a iluminação. até o universo morrerá, o vácuo é a estabilidade total e final da termodinámica, lei regente do amor. lindo, lindo.

- continua escrevendo assim e você será uma lâmina, uma lamícula paralizada no espaço-tempo. uma leitura datada. you dig?
- ah, foda-se. eu acho interessante fazer parte de uma época e um espaço minimamente delimitados. e de qualquer forma não tem muito como fugir disso. é presunção demais para mim querer escrever um lance universal, atemporal. nem da vinci é atemporal. ele está atrelado a uma porção de coisas que têm datas e endereços bem definidos e é bem por causa disso que o reconhecemos.
- ah cara, não estou falando para você ser o da vinci nem o zaratustra, calma lá. é só um toque pra você pegar mais leve nessa coisa de baga, monstro e super.
- mas bila, eu não escrevo assim, eu falo assim. não confunde as coisas: o que se passa sob minha caneta não tem muito a ver com este copo de vodka, no fim. é todo um outro lance, na maior.
- tá, ok, entendi. não precisa estressar também. quer saber: acho infinito.
- que, universo? arrasa.

29.8.08

'se isso faz você se sentir melhor, eu estava usando meu broche preferido: um camafeu verde com moldura e busto dourados.' a verdade é que eu já havia perdido o camafeu uma vez, sempre fora o meu preferido desde que o comprei, e já tinha estado triste e recuperada de sua ausência, então não senti muito quando o perdi de novo. desta vez foi de vez. mas isso não a fazia se sentir melhor, a amiga. junto com o maldito broche tinha sumido seu paletó de veludo, presente da avó. não se usa as coisas das pessoas assim. poxa, você já levou um cara para passar a noite com você lá, e não tem problema, já tinhamos até conversado disso, trepou na minha cama e ok, mas se vai usar alguma coisa emprestada pelo menos toma cuidado.
- olha desculpa, perdão, eu não sabia que era coisa da sua vó, eu sou mesmo uma filha da puta mas não fica com raiva de mim por isso.
- não era da minha vó. ela me comprou. em buenos aires.
- ah, não era dela, dela? menos mal. mas pode mandar fazer um por minha conta.
- porque você não enfia essas desculpas no seu cu? sem lubrificante, porque as mulheres devem dar o cu sem lubrificante para ser real. algo a respeito da dor no parto e longas gripes.
- olha, não há necessidade de chegar nesse ponto, joana. afinal, era só um casaco. eu já pensei em uma porção de roupas pra te dar, além de uma bolsa que eu sei que te interessa e só precisa de uns reparos no sapateiro.
- o que você espera que eu faça com esse amontoado de copisas usadas das quais você ia mesmo se livrar? você é mesmo uma vaca folgada e sem a mínima classe, carina. e pode parar com isso antes que eu enfie a mão na sua calcinha, você sabe bem o que eu posso fazer com a minha mão aí.
- não sei não, sua prostituta mimada. tem algo a ver com mamões? eles são tudo o que me interessa sexualmente agora.
- te amo amiga.
- eu te desprezo.

27.8.08



sociedade de controle e do espetáculo, a gente é mesmo um monte de merda ultimamente - tanto que nossos rótulos são sofríveis como estes acima. e nem ao menos chegamos a falar de raposas, não, serizinhos lascivos. por algum motivo maluco a chama da vela repele a ponta do meu minúsculo cigarro, negando-se a acendê-lo. até a flama pode agir como um moralista: não, não fumarás em ambiente interno e me recuso a elevar qualquer matéria! saia à rua mas antes termine seu drink; ele não será permitido lá fora. a diversão será somente subirmos uns nos ombros dos outros formando uma sorridente pirâmide com músculos bem torneados, besuntados com óleos almiscarados, bundas absolutamente irresistíveis. qualquer um desejareia ter um pau para cutucá-las.

eu, se tivesse um pau, assim de repente, foderia primeiro um mamão. macio, gosmento e deve ser uma ótima sensação todas aquelas sementinhas suculentas, mesmo que fria a temperatura ambiente. acho uma boa primeira impressão, e gosto mesmo só de imaginá-la, esta cena. talvez as frutas sejam ainda mais quentes em seus interiores antes de serem abertas. essa nova perspectiva faz a impressão soar bem mais interessante - mancho o papel de magenta num espasmo. só magenta não, era uma mistura dele com carmim e amarelo profundo. uma cor muitíssimo viva.
eu sei, carrego comigo todo o tempo, mas quando paro pra pensar um pouco a respeito a idéia de possuir um documento de identificação eterna é um tanto revoltante. é como uma parte dessa recente barreira contra os fumantes e os que bebem. querem segregá-los, mesmo que estejam dentro da mesma pessoa. vamos logo nos esfregar em óleo antes que comecem a anotar nossos números.


me dê um pouco de palha para incendiar o mundo. mas não me olhe assim, por favor. também preciso de alimento. há um mês não vejo os landers. essa história de andanças e ventania. de onde estou agora tem-se uma ampla vista da cidade, o que é legal e raro, mas todos os prédios em volta são feios. esta rua é cheia de árvores, então quando vou à sacada do décimo oitavo andar prefiro olhar para o chão.

sabrina é uma maluca. não esqueça de trancar a porta quando sair! ela se diverte à noite, começa só, se embebeda com mojitos porque é louca por hortelã e dança freneticamente, flertando com tudo que é movente (pois ela ama tudo o que flui). ontem ela perdeu mais uma jaqueta e ganhou novamente o mesmo homem, que fuma com gestos de gato. só agora, já a terceira vez, reparou que os olhos do rapaz são claros. os teus também são, ele respondeu. foi a primeira vez que se viram à luz do dia. sabrina gostaria de não ter sido um pouco teatral, porque quando o teatro perde o charme fica sempre uma situação ridícula. quanto a tudo, joga a mais recente do desculpa do estou indo embora desta cidade, talvez de uma vez. costumava se arrepender de uma porção de coisas, sabe-se lá do que sente tanta culpa, porque afinal ela vai morrer e não saberia como lidar com tudo o que não foi feito.

l'univers IV o tempo X

o tempo é a nossa dimensão existencial e fundamental, disse o prigogine. estamos na merda, ela não podia suspirar nenhhuma outra coisa depois de ler isso. sempre temeu o tempo como a um demônio, e então se submete como a um deus desconhecido. nada é mais inumano que ele, pertencente às dimensões que não nos compete e à mais complexa cosmologia. somos a impossibilidade de uma seta do tempo reversível - jamais poderíamos envelhecer ao contrário. há como sermos menos divinos que isso? põe uma peça de biquini na maleta e vai para a praia.

10.8.08



se apaixonou por um corredor. é horrível, na verdade: piso frio branco do chão ao teto, frisos de alumínio nas quinas dos degraus - tem uma escadinha fajuta - um corrimão gelado, bastante estreito no geral e com um cara imenso numa das extremidades, de terno preto. obviamente não na extremidade que lhe interessa. é um tanto esquisito. porque no primeiro terço do corredor tem uma porta preta que dá nesse lugar completamente outro, tudo preto, muita gente, música, bebida, fumaça e risadas. tem essa garota que não sai da pista de dança - ela sempre acaba a noite de manhã com os cabelos molhados. o corredor é uma avenida solitária.

8.8.08

l'univers III bestiário VIII

os exageros só servem para os romances. o universo e o espírito são incompatíveis? o universo ainda faz mais sentido: raios-gama, matérias desconhecidas, todas aquelas probabilidades de emissões de energia aniquiladoras, capazes de enfim dar um fim a nós mamíferos ou qualquer outra classe com que estamos acostumados. apaixonados. nem mesmo os répteis ou insetos. nenhuma espécie de bicho rastejante, muito menos voador. não há nada vivo mais horripilante do que os bichos que voam, especialmente os médio-pequenos: mariposas e passarinhos, tão frágeis quanto o verdadeiro horror pode ser. o péssimo odor das penas de galinhas molhadas. não sei dizer se o fato de estarem mortas influencia nisso, ou porque elas são escaldadas em água fervente. como nenhum desses raios nos atingiu com força desde o fim dos dinossauros? o fim da terra e de suas raças é bem concebível e justo. mas eu não consigo imaginar o fim do universo. porque ele uma hora acaba e então o verdadeiro vácuo e é isso então: o verdadeiro vácuo. sem partículas ou energias.

4.8.08

você tem razão, porque à noite a gente fica perdido. eu fico à noite só, e sei porque há muito ela tem deixado o corpo horrível. ninguém sabe? ora. qualquer um sabe o que é ser a pior pessoa do mundo, o que sou esta noite. a sensação é a de que alguém jogou tinta - tinta não, cola. cola de sapateiro, por puro ódio a qualquer próximo. se bem que ao menos nos servem mexilhões: os laranjas são as fêmeas, e normalmente são os maiores. suspiro. desde quando um código de honra é seguro? o quanto a honra e a nobreza podem distar da moral - eu digo muito, infinito. estamos atolados em um tufão de camisinhas.

nunca sair do barco. absolutamente correto.

só trará dor de cabeça e uma possível satisfação por viver. mais seguro: nenhuma satisfação e nenhuma dor de cabeça, para ninguém, como desejaram os comunistas. este era o fim do rio.

nada bom poderia vir disso. o horror é para sempre agora. então é isso o que buscamos, com os pentelhos tingidos de sangue?

3.8.08



e é isso. fugimos à nossa maneira. ele, amante da estabilidade, em 30s estava com uma namorada. eu, seu completo oposto, do fogo e tal, arrumei um amor a cada 2 dias. todos fabulosos a sua maneira. nenhum como ele. e nós dois sofremos por nossas escolhas, tão necessárias. ou isso, ou a morte lenta, e ninguém almeja a morte lenta - sempre dor além do necessário. caramba, caramba, o que fizemos. senhor frederico, tua ajuda por favor. teus conselhos, tua fuga. pois para um clima seco eu devo ir - e as coisas boas do gênio devem provir dos climas secos.


cada vez que eu olhava o quarto as paredes ficavam mais estreitas.
esse é o nosso lance e eu o compreendo como um homem - pois apenas sendo um homem se entende outro. que a política fique para os que se apaixonam por ela. o fato é: sim, os homens e mulheres têm uma coisa toda diferente, estamos cansados de saber disso mas tentamos ultrapassá-lo a qualquer custo. sim sim, os empregos e os salários e a violência, isso é tudo uma linda vitória, mas a questão das igualdades acaba por aí. assim como um homem, eu desejo a solidão ao mesmo tempo em que cativo uma matilha.

assim como uma mulher, refaço sempre uma manta de desperdício, já desejei uma besta vingança, e de tudo isso genialmente escapei. os gêneros são um acúmulo de besteiras que pode se reproduzir. um viva ao corpo.

1.8.08



caramba. o que estamos fazendo.

no auge da força, de vida e procriação e todo o resto, e o que estamos fazendo? tomando um vinho sul-africano numa noite muito quente de inverno - porque essa terra não tem inverno, tensionando os ombros repetidamente, o vinho também está quente e. se comunicando das maneiras mais imbecis possíveis porque temos que formar uma espécie de matilha apesar de preferirmos a solidão. aprendendo a distribuir sorrisos e sustos, comentando sobre os filmes em cartaz, essa merda toda já foi analisada mil vezes, não há nada mais à acrescentar: fim do mundo por aquecimento e falta de cuidado, a humanidade sempre em declínio, tanto quanto as formas de comunicação se enriquecem, se renovam e crescem. uma ova. ninguém fala mais isso: uma ova. aí, quando menos percebe, estamos tomando vinho quente e voltando à velha história - esse é o sentido da vida. o mais completo tédio e as artimanhas vitais para amá-lo.