20.11.07

biós - bíos




Do arco o nome é vida e a obra é morte.

14.10.07

sono









pelo terceiro dia consecutivo, minha noite de sono dura 15 horas. cansada de abrir os olhos, deve ser isso. ou cansada de abrir os olhos, ver os pares de números vermelhos separados por bolinhas, e essa visão significar tanta coisa além dos pares de números demoníacos (aqueles que se repetem como onze e onze, quinze e quinze, quatro e quarenta e quatro, os vários modos de significar a Besta) - cinco entre sete dias eles me fazem arder a cabeça e de leve o peito, e me levanto correndo, os passos quase firmes em direção à máquina de café, bálsamo primordial de mais um dia.

deveria viver segundo um despertador fisológico, relógio de sol, ou acordada pelas asas dos anjos, quando, antes de dormir, pede-se que eles te despertem na hora necessária então rabisca-se o número desejado com o dedo seco sobre a testa. funciona, diz a sabedoria do começo do século - o passado, é claro.

o sono extenso tem também outro motivo, nesses dias de ócio. me toma a grande preguiça de caminhar e ter que passar sobre aqueles mesmos lugares onde há pouco tempo atrás andava de mãos dadas, só não o beijando o tanto quanto gostaria pois sou pessoa orgulhosa com a idéia besta de que as coisas devem ser equivalentes. não beijarei mais do que sou beijada, grande lema de merda. ainda bem que ainda sou jovem, e esse tipo de besteira só se deixa para trás depois de anos, ou homens corridos.

a sorte é que são paulo é cidade grande, e apesar de ficar presa num nicho de pessoas e assuntos que acabam se repetindo, os espaços e horários que acolhem o nicho podem ser bem vários e isso permite eu nunca ter me encontrado com ele por acaso (pois, nesses dias, encontrar com ele pode muito bem ser encontrar com eles, outras mãos dadas e naquele início fresco e sorridente, de chumbo e asas sempre em riste, que irrita os solitários). mas bem, pra que arriscar esse tipo de coisa num dia que não é dos melhores? 15 horas de sono, recuperar energias e não desperdiçá-las, num dia assim é um tanto mais sábio.

o frio chega de novo, poderia ser mais fresco, mas pelo menos não é calor.
minha pele agradece.

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avante aos lobos escoando pelo olho do tornado!
que mais um milhão de lobos me passe pela consciência,
tantos lobos quanto forem necessário por mês. eu pagarei por isso.

viva chuva








como eu tão espontaneamente chovi, também a cidade chove - acho que uns três meses sem uma chuva de verdade. exagero, é claro. exatamente o que eu precisava, penso. dou um motivo para a chuva me fazer feliz, e me dou uma desculpa para um marco de alguma coisa, de mudança de espírito, o que for. que se inaugure um novo ritornelo, banhado em água gelada e fresca. bebo um copo puro e cristalino.

não consigo pautar uma palavra em linha reta hoje. dia obssessivo por sono e judy henske, as únicas coisas que fiz bem feito. sono sem sonho, daqueles dignos de desmaio mesmo. provavelmente vou acordar amanhã ou qualquer outro dia e ler isso e não me lembrar de ter escrito.

me apaixonei por uns textos de um garoto do rio, mas em seguida arrumei pretextos para desapaixonar. sombrancelhas muito grossas. pronto, elimino assim qualquer trabalho extra. micro paixões e desapegos, como exercícios fáceis, de múltipla escolha, que de alguma forma te preparam para a prova - essa sim, densa.

one solid fucking woman, toda essa merda de mulher da vida, sonhos obscuros, olhares de vidro, purgatório, portas escancaradas e camas - do que me adianta isso agora, vamos lá vida real, do que me serve toda essa merda? eu quero motivos pra sorrir, chega de sturm und drang
, romantismo inútil.

cut-ups de sinapses.


11.10.07

avante - o tempo VII



cercada de lobos quem dera
mas cercada de hienas

avante!
20 milhões avançam empunhados de seus guarda-sóis,
20 milhões tão sós
mente cada passo dado adiante.
de uma forma ou de outra tudo vem de uma porção de brotos, e nunca se consegue prever o que diabos vai germinar disso. micro micro milionésima radícula em linhas nada retas.

avante aos lobos, pois esse é o futuro.
que a proliferação do cerco se opere, um cerco cada vez menos círculo e cada vez mais espiralado
- pois a espiral é cuneiforme, e o topo do que seria o círculo precisa do ponto de escoamento dos lobos. portanto, avante aos lobos pelo olho do tornado!

o presente-lobo é o fluxo constante ao tornado,
tão constante que nem existe.
eu amo tudo o que flui, o que flui é atual. é agora.

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vitalismo, porra!

28.9.07

para perto de quê?



a vida e esses saltos hiperbólicos, essa paulada na cabeça que você mesmo se dá. pois sonhar sonhos horríveis, daqueles que fazem acordar com o peito fundo, pesado, é uma auto-paulada na cabeça. e o pior desse tipo de sonho é que o material do qual ele é feito está menos na sua cabeça do que na vida real.


saltos quânticos, saltos hiperbólicos. qual será que te leva mais longe, e a verdadeira questão é - para perto de quê?
a matemática contém a vida toda, é incrível. pena que não sou muito boa com números. matemática também é bicho, por mais estranho que isso possa soar.

números, números. por deus, são só 7H da manhã e eu já toda encurvada sobre o papel, me enfiando no meio disso tudo. agora?

je voudrais parler avec monsieur Burri, si vous plait. a ordem do dia!

um viva ao bom humor

14.9.07

Ainsi, j'aimé un porc




Foi enfim achada?

O que? A eternidade.
É o mar
Ao sol.

A cada ser, várias outras vidas me pareciam devidas. Este senhor não sabe o que faz: é um anjo. Esta família é uma ninhada de cães. Com diversos homens, conversava com um momento de uma de suas outras vidas. - Assim amei um porco.
A.R. Une saison en enfer


13.9.07

homage a joão - série do bestiário



meu vô joão me ensinou a primeira palavra que eu falei.

cena bonita, história que ele conta sempre que alguém menciona meu nome - e de fato a lembrança de mim que ele carrega, pois quando o encontrei no natal de 2005 ao abrir a porta da casa da minha mãe, não fui reconhecida. "mas você quem é?". a tatiana, filha da vitória vô. "mas você era tão pequenininha, está crescida!". mensurou uns 50 cm com as mãos. se esquecera completamente dos 22 anos sgeuintes que eu o encontrei, afinal eu havia acabado de aprender minha primeira palavra, sinhô!

não posso ir visitá-lo no hospital, brasília está longe nessa época de trabalho incontrolável. mandei beijos por encomenda, aos quais ele respondeu recordando a velha história.

estávamos em ubatuba, eu com 50 cm, ele uns 180. chorava muito essa época, então ele me levou para um passeio na praia, colo de vovô sempre apazigua o pranto. homem da fazenda, não tinha muito a me dizer sobre o mar ou velhos pescadores. gostava era de bicho.

me apontou as aves negras, grandes ,que voavam em círculos sobre a praia. ubatuba devia ser incrível em 84. nunca mais voltei pra comprovar. logo eu, amante de mar. queria ser um pescador, trabalho braçal e comer peixes crús com as mãos molhadas de sal.

apontei também, e repetia: bu, bu bu.

à noite, no berço ou o que quer que fosse, os pernilongos me espreitavam, voando em círculos menos uniformes. os pernilongos sempre gostaram da minha carne branca. reconheci e repeti, sempre apontando com dedos que ainda não eram magros - bu!

sem mamãe, sem papai. minha primeira palavra foi urubu.

25.8.07

alles gut




escorrendo escorrendo escorrendo pelos dedos lá se vai a sanidade.

mais um copo de muco, por favor. preciso besuntar os cabelos finos.
uma imersão muito muito estranha. meus dedos tremem. eu tenho dedos longos, pernas curtas e dedos longos e magros.
o sangue pulsa gelado quando me dou conta dele. é como os passos. eles fluem tão bem sozinhos, mas quando os percebo, os passos andam tortos e eu quase caio. tropeço em cartilagens.
há coisas que não devem ser pensadas, apenas existidas.

woher kommst du? bist du fertig? jetzt? komm mit mir in mein todestrip. nur meinem todestrip, deinem nicht. bitte? oh, du hast den lebenstrip. genau. gut. alles gut.
tut mir leid.





Mar mar mar mar mar mar mar mar mar mar mar. Quero muito pisar na areia. Já faz quase 7 meses. Eu a última vez que fui, jurei que iria morar lá, no mar, pelo menos por uns 2 meses. Fui engolida por mim mesma.

O suicídio, o vôo e a mariposa




"Impressionante o depoimento de um dos poucos sobreviventes de um desses saltos no vazio. O rapaz deprimido conta que, imediatamente após soltar-se no espaço, arrependeu-se do ato, e buscou cair de maneira que pudesse sobreviver. Mas escapou por um triz e com graves ferimentos. Aqueles poucos segundos que separam o alto da ponte das águas do Pacífico foram empregados em meditação relâmpago sobre a vontade de morrer e o desejo de viver. Este prevaleceu."


__________________

Sempre penso nas possibilidades do ato suicida. Isso desde há muitos anos, nada ligado a um desejo implícito - curiosidade mesmo, do que pode acontecer no tempo que circunda a escolha feita e a morte em si. É, obviamente, um tema dilacerador, e para mim a pior dor possível de se ter, é a do arrependimento nos segundos ou fração deles que separam o ato feito do de-fato-final.

Pensando nisso, os pulsos cortados seriam o suicídio mais permissivo com a vida, o tiro na cara o mais leve e o pior, pior pior pior pior de todos é o suicídio de quem que se joga.

Cortar os pulsos, apesar de ter em si uma das coisas mais aflitivas para mim - a lâmina abrindo a pele, que sempre me manteve longe da Medicina - e que exige uma coragem e frieza fudidas, leva ao menos alguns minutos até a morte. Dá tempo de estancar, gritar por ajuda, chamar a ambulância, voltar atrás. Você vê um belo curta-metragem da vida passando sob seus olhos.

Tiro, na cara, na cabeça (acho que quem se mata com tiro tem que ser na cabeça), é instantâneo após o gatilho. O pré-gatilho é o pior, mas uma vez decidido BUM!, vai de uma vez, dor ardida e quente que mal deve ser sentida.

Agora, subir a um parapeito, ao topo de um prédio, a uma janela sem grades e decidir pular - putaqueopariu. Claro, não vou comparar o momento da escolha. Isso deve ser desgraçado em qualquer hipótese suicida. Não tenho nem como querer aprofundar isso. Destruição total e aniquilação, ponto. Mas bem, está decidido (ou pensa-se que está) e quem pula ao menos experimenta o vôo, que deve ser a melhor sensação a se ter na antemorte. Mas existe o tempo, curto mas infinito, do momento em que suas mãos não agarram mais o sólido ao vôo que só pode ser para baixo. São esses segundos em que você realmente se dá conta, passa qualquer dor de vida, o que for, e percebe que acabou, você está ainda vivo e consciente de que acabou tudo, tudo para sempre, escuridão eterna, sem volta, acabou e a consciência é que deve matar. Antes de chegar ao chão, por mais que ele arrebente toda sua carne e esmague seus ossos, saber, ainda vivo, que você está morto por escolha própria e NÃO, porra, não era bem isso e. Muito pior que metal cortando a pele, que depressão, que vontade de nada.

____________

Além do fato de que eu tenho uma atração absurda com alturas. Acho que é o meu maior medo. Jamais pularia de pára-quedas. Não consigo chegar à beira das janelas de apartamentos muito altos, vou meio engatinhando e olho a vista segurando firme em algum móvel pesado. Parece que toda a estrutura predial vai se curvando para a frente quando olho para baixo. Às vezes consigo olhar e posso ficar uma eternidade, fascinada com a distância ao chão. Mas eu jamais olharia para baixo estando no terraço de um prédio. Aliás, subir em terraço de prédio é quase impossível. Algo como a sensação que tenho com as mariposas. Tenho pavor letal daquelas grandes com os corpos gordos e peludos. Terror, não chego perto por nada desse mundo e é bem capaz que eu saia gritando em direção ao mais longe possível. Como se, se eu me aproximar, coloco na boca - mastigar mesmo. É uma sensação muito muito esquisita. O mesmo com a altura. Se eu chegar na beira de um vão muito alto e aberto, dá vontade de voar.

31.7.07

O Luto - e 100 dias foram poucos



Aff. Eu só tenho tempo hábil mental pra pensar nisso uma ou duas vezes por semana. E isso obviamente não é bom do ponto de vista beckettiano - que a lama seca intransponível cubra toda essa porra de uma vez!
Mas não, não é assim que funciona. Eu simplesmente não consigo viver o luto final da coisa toda. Numa espera suspensa constante.
Feita de mar, espuma e nuvem nua (das calças que, secando no varal sob céu laranja, foram roubadas), nada de lama. De matéria com força extrema quando unida, mas solvente a qualquer toque. Um navio que vai e vem, vai e vem até que o casco enferrujado se desfaça - bem aos poucos, como tem sido, lasca por lasca. Pintura refeita às pressas com tinta de terceira, vermelha. Netuno nenhum para vir e estraçalhar com tudo de uma vez como eu desejaria. Ou tornado, ou tufão - natureza me deixando na mão da estupidez humana. Densa como chuva, que destroça cidades mas vem em gotas.
Só penso na violência enquanto chovo, pois nada mais que isso constitui meu luto. Violência. Destruição de planetas internos, pequenas constelações de leite morno, via láctea sem nata nem nada. Toda vez que penso estar cara a cara com a filha da morte, mais um engano. Mais um rodeio de vidraria quebrada, mas nada de cristais. Nada puro renasce disso como deveria.

Achei que a coisa fosse mais rápida.

27.7.07



o problema da fotografia é o equipamento.


mas sério, eu não vou explicar isso agora. tenho que trabalhar amanhã cedo e a coisa vai longe.

nada a ver com o equipamento de guerra abaixo, aliás. quer dizer, nada é muito forte. no fim somos todos meio ciborgues estruturados pelos equipamentos.

nossa, acho que eu preciso mesmo nadar no mar.

25.7.07

Serão apenas os bebês livres do equipamento de guerra?



acho que uma das grandes merdas do ser humano é o freio imposto aos instintos, coisas de bicho. a falta de orgulho animal. penso que eu sempre devo buscar essa aproximação com o que eu considero vida. enfim, penso. nada mais humano e menos animal, mas já que estou atolada nessa merda que eu pelo menos
pense em como levá-la adiante.

entre os instintos animais básicos, além da nutrição e do sexo, há a violência. a necessidade da violência, que é totalmente excluída da ética humana (por ética humana tomo humano-ocidental-contemporâneo-cristão etc). a ética que rege a minha vida social, que seja. a violência está ali dentro, pulsando por expansão e propagação, e é cercada por cancelas morais o tempo todo - a violência é ruim, afinal de contas.

então você joga o instinto de violência no cotidiano urbano, criando targets e inimigos a cada passo, inconscientemente: o cobrador de ônibus, a pessoa lerda que atrasa seus andar corrido, o cretino que não responde o bom dia - essa triste e broxante guerra diária que você leva adiante pois onde diabos vai descarregar a maldita fúria? olha, é uma das coisas que me deixa mais melancólica quando paro para pensar. que me dá vontade de vestir minha pelagem e sair sorrateira às quatro patas me embrenhando por entre arbustos. mas não, eu sento no computador, ligo a banda larga, ouço iTunes e descarrego vontades a conta-gotas aqui.

o lance é, somos todos equipados para a guerra. isso é sistematicamente atrofiado, mas está lá dentro. outro dia, outro mês, li sobre uma menina de 3 anos que matou o irmão bebê asfixiado. horrível, horrível, horrível. mas vendo a coisa friamente, numa situação extrema uma criança de 3 anos está apta a vencer um inimigo para, por exemplo, conseguir mais alimento. uma coisa bem bicho, por isso aterrador. é equipada para a guerra. só os bebês não são.

e morar numa cidade violenta não é exercer esse equipamento nem nada que o valha. isso deveria ser exercido individualmente, não tem relação alguma com manchetes de jornal ou com estar circundado por possibilidades de cano nas têmporas. é individual e corpóreo. sério, você vai passar o resto da vida esvaziando essa tensão pelos poros micrônicos em situações no limite da completa falta de sentido?

o que fazer quanto a isso eu não sei. nem faço, eu penso. arremesso um objeto quebrável ou destruo um pertence valioso; isso me faz sentir tão bem, e só posso encarar como um alívio um pouco maior para a tensão violenta. talvez por isso eu crie circunstâncias que envolvam inimigos e luta em coisas tão pequenas.

jesus, eu quero sair com uma faca entre os dentes e defender meu território, buscar meu alimento e arrancá-lo de outros dentes. sorrir o sorriso, mas sorrir também a velha ameaça dos caninos para os desconhecidos.

assim como é a tristeza, também a violência natural e justa. que o Alberto Caeiro me perdoe. apenas é.


22.7.07

meu duo elo ou a história de um erro


primeiro ato

ping - pong
PING - PONG
PING - PONG
PIIIIIOOOONG!

segundo ato
ping - PONG
p - PONG?
p - POOONG!

terceiro ato
p - pang...>
ping? -
PING! - p
ping.. - pong

quarto ato
pang - pong
p - PONG
- PONG!
ping - ce jura

ato final
PING
PING! - pong
PIIIIING! - pong?
PIIING - PONG!

BANG! _______

domingo - o tempo VI



hoje eu sonhei, e fazia tempo que eu não sonhava. ou lembrava de sonhar.
acho mesmo que eu não dormia.

um presente de domingo. pois domingo é o único momento que eu tenho para estar viva - do jeito como eu vivia há até pouco tempo atrás. no resto dos dias eu vivo outra pessoa, que vai bem, obrigada.

acordei às 8h00 mas estendi o acordar até 12h30 por não saber o que fazer com todo esse tempo. ou por cansaço mesmo. primeira folga em duas semanas liquidificador.

acordei o eu antigo, mas não, eu queria acordar e sair correndo esbarrando em transeuntes para estar na estação certa do metrô 5 minutos antes. é mais fácil assim - e então eu começo a viver o pensamento para outra pessoa que me aluga a alma atualmente.

mas despertei com a velha alma e ela está toda fodida. é isso mesmo, alma fodida. é o mais sincero a dizer. não quero olhar para ela então logo arrumo atividades. todas rapidamente executadas com precisão macintoshiana, então o tempo me agarra novamente pelas pernas e me derruba.

eu queria ter feito um retrato dele domingo passado. de como eu o sei agora, pois eu olho para antigas imagens e só consigo me ver nelas, como se ele fosse eu mesma. alguém conhecido. e o ele agora é um estranho e isso me destrói. acho que aprisionar uma imagem seria um bom jeito de amansar essa inquietação. os vários usos da fotografia.

mas bom, domingo passado passou. e eu cansei. e c'est ça.

de rien

20.7.07

(Conforme contatos telefônicos)


venho por meio deste ser intensivamente lapidada a ceifadas

milimétricamente arranjadas para constituir um novo ser

seu nome me escava e exala um poder

mas perfeitamente, é exatamente

o que eu preciso agora

para guardar

meu ombro

nu.

15.7.07

als der Tod



façamem fogo

barriga de vênus
fênix de pequenas mortes
em aceleração

caída erguida caída subida
de novo me sinto na ponta extrema mais que aberta do ciclone eterno-retorno em espiral de angulação matemática fora-do-tempo. na ponta mais burra. subida mais clara após uma morte bem negra. essa morte sempre sempre burra.

estou esperando pelo dia em que, olhando pra trás, a anos-luz da espiral, eu sorria e ria, até rolar no chão e a barriga de vênus doer com a alegria de ter fugido em direção à vida, ou pelo menos às pequenas mortes que valham a pena serem morridas.

vergess mich
mein todestrip

estranha beira



privada do golpe de misericórdia para uma morte homeopática

renasço como vim ao mundo - nua e sozinha.

olho no espelho uma pessoa desconhecida, com traços em formação, resultado de olhos mareados - e sozinhos, tanto quanto uma dupla de gêmeos. estrangeira de mim mesma e estrangeira de todo o resto, uma coisa é certa e boa. o andar nu, vejo uma cidade nova com o corpo arrastado por um mesmo velho lugar; mas as luzes, os olhos mareados as vêem de um jeito como nunca antes - e assim aguento e sorrio.
revejo como quem vê
repenso como analfabeta de uma língua morta.

as línguas nunca nascidas - dessas sim sentirei saudades
- acho que é tudo que ainda traz lembranças
e ignoro saber que elas são proclamadas
por outras cabeças estrangeiras.

14.7.07

fagotianas


fabio-te fago

corpo desarmado
fago-te sábio
se saiba-me

12.7.07

auschwitz pra cima de moi? - série do bestiário



alpistes de medo para um pássaro em vôo

te faz tão mal ficar só, sem guepardo
sem costas de marfim?
alpiste mesquinho,
alimento sem fim

em uma jaula sem fundo.
gaiolinha de egos.

não vejo mais meu verde
no teu olho quase negro
olho de passarinho urubu -
passarinho pensa que é macaco.

se faz de pedra, aquela da história
que me estendeu sobre seu fim
e pedra só não voa
não porque não tem as asas,
mas porque não quer.

um titã se alimenta de mais que alpiste
como pensa que consigo ser guepardo?
guepardo atira pedra ao longe até virar estrela
eu corro sobre o mel.

9.7.07

rio de janeiro - l'univers I




Depois de um fim de semana na via láctea voltar para as pás do liquidificador. Dilaceramento sempre lento, obviamente de baixo para cima. E olha que eu nem saí de dentro do apartamento.


Não há sentido ficar repensando remoendo. A merda é que a bola foi para a frente mas sempre volta um pouco atrás, e estava quase no ponto zero de um otimismo ingênuo. Eu sempre penso que ainda tenho 21 anos.

Saudades do século XIX. E da comidinha de fazenda e do céu mais estrelado deste canto do universo. O rio arrasa são paulo. Meu rio tem montanhas de luzes na noite cheiro de mar daguerreótipo bromo, amálgama de mercúrio. São paulo já sei demais. Mesmas velhas pessoas com mesmas velhas atitudes, mas eu gostei de chegar na avenida paulista às 5 da manhã e o dia ainda ser noite - porém sem uma única estrela. E eu que vi 10 estrelas cadentes em duas noites. Espero que meus pedidos realmente me levem para fora daqui, porque às vezes o peito sozinho não consegue e precisa de uma ajuda de infinito mesmo.

7.6.07

um pouco de beckett - o tempo V



são de matar, as lembranças. então não se deve pensar em certas coisas, naquelas que nos são mais caras, ou antes deve-se pensar nelas, pois não pensando nelas corre-se o risco de encontrá-las, na memória, pouco a pouco. quer dizer que se deve pensar nelas durante um tempo, um bom tempo, todos os dias e várias vezes ao dia, até que a lama as recubra com uma camada intransponível. é uma ordem.

faz tempo / a festa de despedida

aaaaargh, atravessada por mil agulhas.
acabaram de atear fogo aos desejos da árvore da despedida, neste exato segundo, mas eu fiquei saturada de pessoas, vozes, mãos, copos, sons, olhos, fumaça, e vim me retirar um momento, como normalmente faço nessas reuniões sociais, pra viver sem o leve sorriso contraído no canto da boca, sem sapatos e com a calcinha à vista pois estou com as pernas confortavelmente abertas.
eu prefiro a boa e velha coisa lenta, demorada, introspectiva e solitária. todos já se mudaram do apartamento mas eu resolvi dormir aqui sozinha até o último dia com tudo o que eu realmente preciso para viver, um tanto mais até, e percebo que na verdade não se precisa de quase nada que faça volume e que coisas que eu realmente precisava não existem agora, e a àrvore dos desejos em chamas.
tenho:
o colchão de solteiro no chão com lençol, edredon e um travesseiro
uma luminária
caderno
estojo de canetas stabilo, lápis, borracha e estilete
uma pequenha mala de roupas, sapatos e derivados
o computador
telefone
remédios homeopáticos, incluindo a passiflora pra dormir decentemente
câmera fotográfica
dicionário de alemão
"novelas", edição com 3 delas, do beckett
ipod
kit com garfo, faca e colher, um de cada

acho que a lista já está grande.

29.4.07

Der Dichter - Rilke

Já te despedes de mim, Hora.
Teu golpe de asa é o meu açoite.
Só: da boca o que faço agora?
Que faço do dia, da noite?

Sem paz, sem amor, sem teto,
caminho pela vida afora.
Tudo aquilo em que ponho afeto
fica mais rico e me devora.

(tradução de Augusto de Campos)

_______________

Du entfernst dich von mir, du Stunde,
Wunden schlägt mir dein Flügelschlag.
Allein: was soll ich mit meinem Munde?
mit meiner nacht? mit meiner Tag?

Ich habe keine Geliebte, kein Haus,
keine Stelle, auf der ich lebe.
Alle Dinge, an die ich mich gebe,
werden reich undgeben mich aus.

25.4.07

19.4.07

AA



jovem casal se encontra em quarto de cidade grande por uma noite e trocam carinhos e confidências fingindo não saber que nunca mais se verão.
anônimos anônimos

preciso descolar mais palavras

15.4.07

estou quebrada




sono, cansaço, acordei cedo, dormi pouco hoje vivi bastante.
mas não o bastante: vidro que brado e a quebra da fala uma dor forte
de
tudo dobrando por dentro gosto de sangue na boca.
goto de sangue na boca pâncreas no esôfago estômago ardido
nem tenho mais fígado foi um milk shake de tudo.
só depois eu saio e vejo o ferro retorcio de lataria amassada
via crucis de gente sem nome você está bem? você está bem?
apalpo e pareço inteira mas me sinto pedaços
vidro vidro cabeça vidro no chão estilhaço e eu só penso no fígado
mal consigo articular puta susto puta susto e o pâncreas no esôfago
melhor que no asfalto
hormônio louco me despertou do semimorto corpo gasto de dança
era só uma festa de aniversário, o meu; e eu acho que viciei.

13.4.07

cor traço papel

eu nunca escrevo direto na tela. escrevo não, digito.
escrever é no papel, com caneta de tinta nanquim.
eu viciei em tinta nanquim, ou em stabilo, porque elas servem bem pra desenhar também.
e a stabilo tem cores, que eu ainda não consigo usar direito
nunca saio do verde e do vermelho.
e quando uso as outras cores, é com daltonismo,
pois eu estou vendo só verde preto vermelho.

engraçado isso.
não é condição constante minha, é uma coisa mais de agora. do agora.
sem amarelo, sem azul.

me parece um caso perdido digitar na tela.
no papel tem o traço e tem a letra, e isso é bem importante na escrita.
e você faz o layout como bem entender também,
e enfia um rascunho de planta no meio de tudo
pois você acha que isso vai combinar com a poesia.

mas postar algum desses desenhos aqui, com esses textos sem corpo?
caso perdido.
e, como já me aconteceu umas vezes com esse negócio aqui,
este mesmo, desde 2003 - você surta e apaga tudo,
ou edita o que você um dia quis ter.
errado, errado.

no papel a coisa está lá, você guarda numa pilha de velharias
dentro da despensa
mas hora ou outra as páginas se arreganham na tua frente.
e então você relembra - e nessas horas o corpo da tua letra é tão
importante, até pra perceber em quais escritos você estava bêbada.

você = eu

11.4.07

série do bestiário

no mundo que me rodeia
lobisomem sem lua cheia

10.4.07

10.04


hoje eu não escrevo

e adormeço
eu não engordo
nem emagreço
quando de tarde
eu amanheço
o resto não sei

com certeza não amo,
odeio ou penso
decido se ando,
corro ou pereço
não lembro os nomes
nem endereços
quero que tudo se exploda
e agradeço
se apenas por hoje
hoje o dia eu mereço.

9.4.07

gravura por encomenda



açougueira de imagens

escavadeira de retalhos
afundo detalhes
e revelo em cada encavo
relevo
ponto por ponto
um insosso mosaico
- que não é meu
e às vezes eu acho
que carece de breu

l'amour ne dure pas toujour



eu sou uma pessoa por semana e não sei mais o nome de nada.
o frio está chegando e ele já me tocou com os dedos magros de um cachorro louco. a praia está tão longe e eu, consistente animal urbano, me descubro um humano do mar. por que tudo em mim é sempre ao contrário? realmente, não melódica como um violão, me sinto sintetizador. sinto hermética e expando em dor,
quanta combinação de botão.
mas agora, e logo agora que eu deveria ser trabalho, trabalho, trabalho, me pego repensando em amor.

mais leminski

lá vai um homem sozinho

o que ele pensa da noite
eu não sei
apenas adivinho

pensa o que pensa
todo mundo indo

um dia
eu já tive vizinho

_________

vezes sem conta tenho vontade
de que nada mude
meiavoltavolver
mudar é tudo que pude

espada



ponta seca e dura

de uma planta bastão
verde necessário que atravessa
vermelho de coração
sombra reta, uma fresta
todas juntas
até refresca

esta hora, mais um vão
em vão

oblíquo

penso vezes que não vou conseguir
que o R de pedra
vire R de pluma
e o arranhar da garganta
arisco de puma
fique macio e fácil
como o nasal de um cão
nein nie no nicht
tão suave como não
cada uma das mil gotas
re-regam o orvalho fresco
no cimento
e assim te penso -
úmida como orvalho
variado pelo vento
tesa de cimento
te lembro.

la vie en close / c'est une autre chose

matar, a mais alta forma de amar,
matar em nós a vontade de matar,
voltar a matar a vontade,
matar, sempre, matar,
mesmo que, para isso,
seja preciso todo nosso amar

___________

vazio agudo



ando meio



cheio de tudo

(P.L.)

8.4.07

bicho - série do bestiário



vou e faço

sem ver o sentido em nada
as pernas movem e andam
minha cabeça não se abaixa
as palavras saem todas umbigo,
entranhas
esôfago para fora
sem sentir o sentido de nada
em frente eu ando não sofro,
não rio, não amo
ando
topo os pés em cada cama
sem deixar lágrima para trás
me engano e engano
esqueço as frases
carrego só as mãos
que me carregam
de novo anônima
caminhando
sobre o sentido
de nada
aquele que rimava com cada passo
nada
sem sentido desfaço
as teias da minha cabeça dura
teias de aço
dá muito trabalho ser bicho.

cheiro



estou cansada
pouco mais que cansada_
esta
noite se apaga sem ouvir tua voz.
fez você como eu e se perdeu
numa pele que te satisfaz,
mas não como a minha.
não há sexo como o meu você diz_
sigo macia e feliz.
sei que, por mais que eu tente
,
não há sexo como o teu.

7.4.07

ficções do interlúdio

nem sempre sou igual no que digo e escrevo.
mudo, mas não mudo muito.
a cor das flores não é a mesma ao sol
de que quando uma nuvem passa
ou quando entra a noite
e as flores são cor da sombra.

___________

navio que partes para longe,
por que é que, ao contrário dos outros,
não fico, depois de desapareceres, com saudades de ti?
porque quando não te vejo, deixaste de exisitir.
e se se tem saudades do que não existe,
sinto-a em relação a cousa nenhuma;
não é do navio, é de nós que sentimos saudade.

(A.C.)

calor em noite fria



meia face rubra

incendiada pelo forro
baixo e quente
queimando como bafo ardente
minha alvura fina.

meia casa quebrada
de vidas amontoadas
isenta de ilusões
pra noite de fim certo.

meio centímetro
a distância de um rosto
que não reconheço
pairando em ar espesso

e de novo, sem perceber
às 5 amanheço.

2.4.07

caralho de boné, eu vou enlouquecer putaqueopariu
eu só quero dormir dormir dormir dormri dormri dormir

insônia - o tempo V

cordão latejante de sangue
insiste em esmurrar, vindo da perna,
a entrada esquerda da virilha
- l'entre d'enfer -
impedindo o sono de se assentar em mim
sempre desperto pelo barulho volumoso da veia.
5 e 20 da manhã, então já é bem segunda feira.

1.4.07

num espaço roubado sem cama

queria vê-lo sem roupa, todas jogadas
no chão com algum mato.
o chumbo e as asas em riste
olhos vazios
e a linha central do corpo planície.
um corrimão de ferrugem
da escada sem saída
muito importante -
seus olhos vazios
só a pele tem vida.

30.3.07

o tempo IV

série do trem - março07

entre o sim
mas pelo não
mais um dia vai em vão
vão-se todos a completar semanas
- que conto.
entre o sim
vou pelo não.

__________

composição
em verderosa
contrasta
os pés negros de dedo torcido
e a sola branca
dura
quer ser rosa.

__________

o vinco no rosto cavado de lágrima
assentava os traços
nos cantos, ao céu
do sorriso vivido.

29.3.07

o tempo III

o tempo do agora.
isso faz todo o sentido possível para mim, mas somente do lado de fora. em algum nível que não sei especificar - mas que certamente define o que sinto - são apenas símbolos que me ssão impossíveis de decodificar. todas essas letras.

parece-me que racionalmnete compreendo a teoria, então porque a dificuldade em fundí-la no maldito ser, naquele pedaço de nuvem que arde mais que qualquer coisa?

simplesmente aceitar que os agoras são passageiros, que na verdade não há tempo, que o passado é composto de matéria morta? afinal, a memória é um ato falho, e provavelmente só serve para confundir-nos pois sei que ninguém se alimenta de lembranças - apesar de às vezes pensarmos que isso é possível.

aí está, aquilo que normalmente se espera de uma fotografia é uma doença, tão verossímel quanto uma neblina que nos confunde a vista.

28.3.07

2003 foi um ano louco



apanhado 2003ziano


sobre nada mais raciocinar, por algum momento
nem velar por dentro
quero ser o meu vermelho

___________________________________

quebra a linha do sono enquanto penso.
me retorna o gosto amargo
visão da luz no cromo denso
reflete teu eterno amor passado.

agora eu eterno amor passado

____________________________________

"a atmosfera está saturada de desastre, frustração, futilidade. coça-se e coça-se - até não restar mais pele. todavia, o efeito sobre mim é estimulante. em vez de ficar desencorajado ou deprimido, divirto-me. estou clamando por mais e mais desastres, maiores calamidades, malogros piores. quero que todo o mundo se desmantele, quero que todos se cocem até morrer."
(aquele bom humor h.m.)

_____________________________________

me inunda por completo, preenchendo
meus sentidos com seus fluidos
(e eu amo tudo o que flui)
jorre sobre mim cada saliva, cheiro, pele
sêmen, suor, pele pele, pois tudo desejo.

despedaçar qualquer resquício de história e realidade em tua carne e teu espírito - abraçar o que há de intenso.

______________________________________

chumbo com asas. a melhor definição.
e que pulsa pulsa pulsa em minha mão.

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os meios penetram pelos poros, a saliva se solidifica no cimento, e assim a dança prossegue até o ato final.

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cotidiano

e certamente veio, a cara amarrada, o levar a sério, o contrargumentar e a total ruína da noite. total. a mesa agora transbordava de constrangimento e eu só queria engolir o camarão terminar o vinho branco levantar e sair sobre minhas próprias pernas - nuvens de calças.

o tempo II

coisas girando numa esteira rolante a mil por hora e meu corpo gritando para se ater com os pés no chão. o tempo do orgânico mal permite que se estenda o braço e alcance uma porção do tempo eletrotecnomecânico que opera por dígitos.
tratamento de choque por doses hoemopáticas e eu sou muito jovem para conseguir rachar tudo isso ao meio e me permitir um modo de vida que opere como linha de fuga.
aliás, não sei se é só uma questão de tempo - pois não se pode desconsiderar a doença do território. mais um fator para deixar o corpo em frangalhos, e não sei se é muito romantismo, mas acredito que o corpo seria mais são se vivesse o nomadismo. ao menos por um curto período, um que me permita o descolamento do tempo numérico em eleição à temporalidade. às temporalidades, cada qual no seu espaço adequado.
por isso tudo me permiti o desligamento parcial de algumas ofertas da esteira girante. claro que - doença do tempo, do território ou da natureza? - sem deixar de me sentir um pedaço de merda inútil, que não serve de engrenagem a nada.

(pessimismo, ainda que romântico e nostálgico, de 2005 - bons tempos, maus tempos. agora mais dentro da esteira, tropeçando a cada passo)

o tempo I



o bom e velho tempo dos fluxos e intensidades.

o dispersar de sua caminhada vespertina desmembra o tempo não em horas minutos segundos, mas em fluxos de elétrons com feixes luminosos potentes o suficiente para rasgar a carne de um corpo vivo. com cautela, ela senta num banco ao pé de uma árvore e fecha os olhos, afinal ela não quer provocar nenhum acidente.

deixa os elétrons se debaterem dentro de seu corpo até sentir o esperado formigamento que acalma os fluidos internos. sob pressão arterial constante.

tempo, primo da morte, mas muito mais impiedoso.
recuperação de velharias.

eu nem lembrava da existência disso.
faz tempo, mas não tanto.

e por algum motivo muito irritante não dá pra logar pelo blog antigo.

10 Junho 2005

acabei de ver uma cena incrível. um mendigo deitado de bruços num colchão, e uma mulher pisando em suas costas. era uma massagem, e ele sorria de olhos fechados. esquina da higienópolis com a angélica.

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hoje vi duas coisas belas.

primeira, uma que já havia visto, mas agora no cinema: a liberdade é azul. queria dizer uma c
oisa sobre ele, mas já disse no primeiro post. mas é exatamente isso. a música é absurda (apesar de ter me tocado mais quando a ouvi pela primeira vez saindo das caixas afundadas e ruidosas da minha televisão), as luzes são maravilhosas, pontuais ou escandalosas, mas sempre com sutileza. as tomadas dos reflexos são de chorar, e a liberdade é só. assim como o amor. o homem da flauta. sempre temos que nos apegar a alguma coisa, e dorme com a cabeça sobre o estojo de madeira. mas um dia ele sai e deixa o estojo na rua.
me deu vontade de mergulhar numa piscina muito limpa.

segunda, eu também já tinha visto, mas em outro lugar. a série de fotografias pinhole-agfa da fátima roque feitas no Rio. emulsão dissolvida, marcas de digitais, horizonte deformado e linhas sinuosas formadas apenas pelo encontro da luz com aquela câmera específica. todas dispostas em caixas, pois a fátima é a mulher das caixas. tudo pensado e tudo sentido. e a bicicleta que desafia as leis da gravidade, apesar de não ser capaz de apontar esta como a minha fotografia preferida da série. por um momento diria que é a do guarda-sol com espectros, mas então vi mais uma sequência que me tirou a vontade de ter que optar por preferidas. no itaú cultural até 10.07.05. sempre em busca do branqueamento da caixa preta.

hoje vi duas coisas belas. e às vezes odeio a filosofia por me pedir explicações sobre isso. foda-se os problemas da estética. essas coisas são o meu belo, folhas secas são belas, sua mão apertando meu peito é belo, marcas de vida tátil em fotografia é belo, o aveludado de uma fotogravura impressa é o belo, mas por favor não me peça pra conceitualizar isso. por favor. hoje um homem viu o belo em mim, parou ao meu lado e ficou me olhando mudamente enquanto eu observava seu olhar pelo canto direito do meu. acho que ele viu beleza em costas e ombros nus seguidos de uma linha preta que terminava numa saia rodada - estava com cabelos muito negros e desgrenhados.

06 Junho 2005

as pessoas confundem existência com vida. a existência é individual e a vida está em tudo, perdura infinitamente além da existência. num acesso egoísta ou mesmo ignorante a maioria usa a vida para a existência, o que é uma grande besteira. deveriam usar a existência em prol da vida, o que é bastante difícil. mas pelo menos que tenham a consciência disso.
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hoje eu vi o brown bunny. filme bastante triste e bem egocêntrico dentro dessa tristeza - algo que eu posso compreender muito bem. mas minha tristeza é natural e justa. esses dias eu vi la notte do antonioni. também um filme triste, também uma tristeza justa, também algo que compreendi muito bem. é aquilo que acaba se transformando em anestesia para levar a existência adiante, mas que vai queimando cada célula silenciosamente por dentro.
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"O fato de uma coisa ser difícil deve ser um motivo a mais para que seja feita." a boa e velha sabedoria romântica, tão degenerada ultimamente. por isso as pessoas não entendem porque faço fotogravura.
"Assim, para quem ama, o amor, por muito tempo e pela vida afora, é solidão, isolamento cada vez mais intenso e profundo."
* rilke, cartas a um jovem poeta. enfaticamente recomendado

amar é solitário.
a fotografia também é solitária. eu amo e fotografo. e isso está também intimamente misturado, meu amor, a fotografia, as imagens de tudo isso, o reflexo que encontro para tudo isso. pois nós não conseguimos enxergar nada além de reflexos, só os cegos devem perceber as coisas em si. as coisas nelas mesmas. acho que isso atrapalha um pouco a minha relação com o amor. ele não é cego, é reflexivo.
meu amor está agora em contato com a morte, num lugar onde não posso abraçá-lo. me senti aliviada por ele estar inalcançável, pois isso me recobra a liberdade da solidão. não tenho como ouvir sua voz ou ir ao seu encontro se ele não o fizer antes. nem se eu quisesse muito. me lembra outra época em que ele estava mais inatingível ainda e não consegui lidar bem com aquele mês. a liberdade transformou meu chão em nuvens que estou tentando condensar até hoje.
posted by t. nardi @ 2:50 AM 0 comments

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