28.9.08



esteve amante de um açougueiro. cada noite ele desejava um pedaço dela pois só enxergava em retalhos: a bunda, as pernas, a boca, os grampos, as botas e por fim os seios. afundou seu rosto enquanto dizia como eles estarão ainda iguais quando ela fizer 70 anos. ele lidava muito bem com a carne, mas nunca entendeu o gosto que ela tinha pelo cheiro de pele; "só o das peles que eu aprecio, claro". também percebeu que o rapaz achava suas costas boas de morder. uma vez eles acordaram com um gato rosnando entre os dois então se deu conta da mulher ali, inteira e nua. disse que não conseguia acreditar e deu o veredito - você sabe mentir bem. só porque não entendia o que via seus olhos e era inimaginável a capacidade da mulher de contar boas histórias. só podem ser mentiras. é tão simples: a mulher gosta de viver e é isso que gera boas histórias. ela desistiu e resolveu ir de vez para fora daquele quarto sem quadros. só uns dias depois percebeu que deixara o fígado para trás.

21.9.08

d'ombre / bestiário / engel



chorei com a pegadinha do tubarão. porque é o seguinte: a cada tubarão que passa, eu fico mais cínico. e cinismo pode ser bom para conversas, mas é uma merda quando é desenvolvido em relação à felicidade - meu maior demônio me contou isso. citalopram com mojito para todos! então funciona assim: a cada encontro o objetivo é a independência, a alegria por estarmos vivos e bem. e quando não nos vemos a coisa aumenta e aumenta, até que, para não ser engolido por um tubarão, preciso marcar uma nova visita. a lama, ainda fresca. sigo a prescrição metodicamente, mas ainda assim eventualmente enlouqueço na espera ingênua pela secura intransponível. então, o cinismo me deixou incapacitado de abraçar as coisas que mais amo. a ansiedade me faz rir compulsivamente e tagarelar por não conseguir sair correndo de mim mesmo. weil ich meine garce d'ombre wiederliebe.

18.9.08

saí sem meu cavalo - um erro



então foi isso. um dia no inferno e o anúncio do fim da noite num grande tombo enlameado com cerveja. em frente a todos os nobres cavaleiros - ela sempre acaba sendo aquelas meninas dos filmes franceses, petulantes e infantis, que caem por aí às 5 da manhã. ah, petulância, resolveu não deixar por menos e partir com dois enfants, que no fim eram irmãos e passaram o início de sua manhã vociferando palavras de ódio e jesus, ela não aguentava mais ter que discutir sobre o syd barret. ela só prefere ele e ponto. na hora de se afogar com um deles bateu-lhe um desespero como nunca tinha sentido, um medo do corpo como uma vez lhe disseram. além do mais, não há coisa que ela odeie tanto quanto umidade no ouvido, deveria ser coisa proibidíssima. então se esgueirou e saiu sob brados de 'sua medrosa, só volto lá no ano que vem'. metendo a camiseta por dentro da saia, olhou par'o james e comentou sobre seus olhos bonitos, pequenos, e que ano que vem ela não existiu mais.

17.9.08

l'univers VI - mitologias



troca de cabeças tem sido uma cirurgia reparatória cada vez mais comum. ajuda naquela história de que o sol é meio mestre, mas ele e deus e o universo cabem dentro da química; e a química, enganamo-nos, jamais caberia numa condição humana. na cabeça, imagina. por mais que a gente viva trocando-as.

15.9.08



caramba, vamos logo mascar essas camilas! fico atordoada com o tempo, continuamente. é um jogo de pingue-pongue sem braços, tipo pintores com os pés e com a boca. umas piscadelas para os porteiros são sempre úteis nesses casos, eles carregam as raquetes para nós. tudo isso para tentar escapar do buraco negro das faculdades - cognitivas e linguísticas. me banho numa orgia de mel e tento me safar ainda com a sanidade pelo mesmo velho fio. aquela vaca me falou, roçando a língua nos dentes: vontade e dinheiro não são suficientes, meine Frau. muito obrigada pela ajuda, sua prostituta. Guten Tag.

13.9.08

i'm a painter i'm a horse



a noite passada eu acordei tão fodido que preferi não dormir esta. porque a cabeça fica num loop de am siebenundzwanzigsten Oktober a velocidades cada vez mais ensurdecedoras. já não consigo mais decifrar uma letra da outra, e o mantra virou um raio. assim, peguei meu gravador em rolo de 1/2 polegada e me enfaixei da orelha ao umbigo para abafar o som. o chá de boa noite me mantém cada vez mais acordado. a garota não me liga, orgulhosa que é, deve estar rebolando por aí com os olhos vendados. eu não ligo nem o meu barbeador mais. é complicado, porque os meus pentelhos crescem como árvores até o pescoço, vão colando barriga acima, saem pelo nariz. bastante repulsivo. ainda bem que ela não me procurou hoje.

11.9.08

l'amour



- então morra. morra e renasça quantas vezes precisar. mas faça isso logo, pois eles já estão nos esperando há 30 minutos.
- você nunca me amou de verdade, não é mesmo? esteve fingindo todo o tempo. durante 5 anos. - que coisa mais estúpida você está me dizendo. desde a primeira vez que te vi passar, toda retinha, me refiz todo por dentro. e olha que você usava umas roupas horríveis, de moleque. - é. mas eu sempre tive postura. e você também: me apaixonei pelo jeito que você se sentava ao computador, quase escorregando da cadeira. ainda assim, com porte. e não quis ver mais ninguém pela frente por um bom tempo. - posso chamá-la de irmã mais velha? assim, como um recém-nascido que precisa ser guiado; e as únicas pessoas que sempre dizem sua pior verdade são as irmãs. elas podem mesmo ser cruéis. - mas que caralho de amor é esse, como você me pede isso, rapaz? me chame de inimiga, porque é isso o que nos tornamos, para sempre. carregando um cetro, regendo o próprio inferno. você sabe bem do que estou falando. - por isso te disse: morra e renasça quantas vezes precisar. por nós, eu farei o mesmo. - e por hora você volta para sua compania. caramba. compania. é o pior eufemismo para suicídio. - você é mesmo vingativa. - o que mais pode querer sua inimiga?


- vamos só tomar uma cerveja, desmitificar esse nosso lance de trepadas sem nome e noites esfumaçadas.

- ok, garota. mas então me dê seu nome de verdade. não pode ser tábata.
- haha, não. tábata, é o nome mais horrível que eu consegui inventar na hora. assim como carina, que não é nada horrível. o que rege, sempre, é o tempo. e o seu, é jonathan, certo?
- você é maluca.
- somos iguais. a gente tem esse lance deixado pra trás que não será nunca deixado pra trás. você, com seu par de pernas loiras, eu com a imagem de um pescoço bem viril. com foco, sem foco.
- mas porque isso? eu não preciso mais dela, você não precisa mais dele.
- é só um álibi para não fazermos nenhuma besteira. você sabe que tenho apenas mais 15 dias.
- e espera um filho meu.
- não sei ainda. não sei se quero esperar esse tipo de coisa. olha, isso não pode estar certo se eu penso num filho como numa coisa.
- eu ainda não tenho quadros pendurados na minha parede. só tenho aquele baú que minha mãe me presenteou, para guardar as coisas. guardei, e nunca o abro. depois de 3 anos e meio já me esqueci do que tem lá.
- é, mais ou menos como eu e minhas caixas. vou abri-las daqui uns 10 anos e me encher com surpresas: porque diabos guardei esses tupperwares e caixas de fósforos peruanas?
- eu coleciono baralhos de tarô estrangeiros. não sei porque, nunca fui crente.
- temos que ter uns ídolos, espécies de amuletos. eu carrego uns que um inimigo me deu: uma pantera e sua esposa, a sereia espadada. eles vão comigo, inclusive.
- para a bulgária?
- para sempre.

10.9.08

mitologias V



caramba. a garota está aterrorizada, fica repetidamente desenhando o rosto da fenix que copia de fotos roubadas na internet. parece não perceber o papel de completa babaca que está fazendo de si mesma, morrendo de ciúmes de uma pássaro. ela está voando para longe, garota. nesse seu desepero bobo corre à maquininha de costura, faz pena por pena com o maior esmero, cada uma com sua estampa, um primor de asa. duas asas. faz até um bico ridículo estufado com espuma, mas nem ao menos notou que a fenix não tem bico - só esses enormes olhos coloridos que ela não consegue simular, jesuis. agora ela entorna xícaras de café preto na esperança de partilhar da matilha. à noite, só pesadelos. um dia mete uma bala bem no meio do esterno.

4.9.08

mitologias IV o tempo XI

quinta-feira, 7h00. sento numa das mesas da lanchonete quase vazia. não tenho nada a pedir realmente além de uma distração para os 83 minutos seguintes - espero por mais um ônibus e assisto os andares locais. num balcão de aço, manchas gordurosas opacam o contraste com os bancos de discos vermelho-nacarados. vasos chineses para bundas. em dois deles, chaos & femelle mastigam serpentes como se fossem rosquinhas, lambendo os dedos enquanto elas gritam em guinchos finos de ouro. chaos & femelle se entreolham sorrindo, as barrigas cheias de víboras, então caminham sobre os relógios dos últimos 5 anos para que o eterno nunca mais retorne e num estrondo o universo se renove. neste momento caem os braços de uma vênus aflita pelo fim das horas. 26 minutos.

ao fundo da lanchonete um velho caipira de boné amarelo tem uma câmera na mão e uma tv à frente. sua senhora se foi e ele insiste num feedback, apontando a filmadora para a tela, sua em bicas. sofro por essa nossa mania de querer aprisionar o tempo em imagens. 2 minutos.

2.9.08



tome um pedaço de bolo para se calar, cheia de lamentações. mulher é sempre a chata, e por isso ela não quer ser mãe - quer ser pai. com os olhos inchados desse jeito, só umas boas palmadas estaladas podem fazê-la sarar. e devem ser dadas por algum rapaz que escreva uma música sobre ela, de como ela é uma dessas garotas do crumb. 'você pode subir em cima de mim se quiser.' ele quer sentar sobre sua bunda enorme, dessas que deixam os homens loucos, grande para trás, e assistir um video do serge gainsbourg do começo de carreira. em cima do criado-mudo uma foto das pernas da ex-namorada: é a única imagem que me agrada. por isso ando muito de olhos fechados por aí. ela fugiu com o escultor.