31.7.07

O Luto - e 100 dias foram poucos



Aff. Eu só tenho tempo hábil mental pra pensar nisso uma ou duas vezes por semana. E isso obviamente não é bom do ponto de vista beckettiano - que a lama seca intransponível cubra toda essa porra de uma vez!
Mas não, não é assim que funciona. Eu simplesmente não consigo viver o luto final da coisa toda. Numa espera suspensa constante.
Feita de mar, espuma e nuvem nua (das calças que, secando no varal sob céu laranja, foram roubadas), nada de lama. De matéria com força extrema quando unida, mas solvente a qualquer toque. Um navio que vai e vem, vai e vem até que o casco enferrujado se desfaça - bem aos poucos, como tem sido, lasca por lasca. Pintura refeita às pressas com tinta de terceira, vermelha. Netuno nenhum para vir e estraçalhar com tudo de uma vez como eu desejaria. Ou tornado, ou tufão - natureza me deixando na mão da estupidez humana. Densa como chuva, que destroça cidades mas vem em gotas.
Só penso na violência enquanto chovo, pois nada mais que isso constitui meu luto. Violência. Destruição de planetas internos, pequenas constelações de leite morno, via láctea sem nata nem nada. Toda vez que penso estar cara a cara com a filha da morte, mais um engano. Mais um rodeio de vidraria quebrada, mas nada de cristais. Nada puro renasce disso como deveria.

Achei que a coisa fosse mais rápida.

27.7.07



o problema da fotografia é o equipamento.


mas sério, eu não vou explicar isso agora. tenho que trabalhar amanhã cedo e a coisa vai longe.

nada a ver com o equipamento de guerra abaixo, aliás. quer dizer, nada é muito forte. no fim somos todos meio ciborgues estruturados pelos equipamentos.

nossa, acho que eu preciso mesmo nadar no mar.

25.7.07

Serão apenas os bebês livres do equipamento de guerra?



acho que uma das grandes merdas do ser humano é o freio imposto aos instintos, coisas de bicho. a falta de orgulho animal. penso que eu sempre devo buscar essa aproximação com o que eu considero vida. enfim, penso. nada mais humano e menos animal, mas já que estou atolada nessa merda que eu pelo menos
pense em como levá-la adiante.

entre os instintos animais básicos, além da nutrição e do sexo, há a violência. a necessidade da violência, que é totalmente excluída da ética humana (por ética humana tomo humano-ocidental-contemporâneo-cristão etc). a ética que rege a minha vida social, que seja. a violência está ali dentro, pulsando por expansão e propagação, e é cercada por cancelas morais o tempo todo - a violência é ruim, afinal de contas.

então você joga o instinto de violência no cotidiano urbano, criando targets e inimigos a cada passo, inconscientemente: o cobrador de ônibus, a pessoa lerda que atrasa seus andar corrido, o cretino que não responde o bom dia - essa triste e broxante guerra diária que você leva adiante pois onde diabos vai descarregar a maldita fúria? olha, é uma das coisas que me deixa mais melancólica quando paro para pensar. que me dá vontade de vestir minha pelagem e sair sorrateira às quatro patas me embrenhando por entre arbustos. mas não, eu sento no computador, ligo a banda larga, ouço iTunes e descarrego vontades a conta-gotas aqui.

o lance é, somos todos equipados para a guerra. isso é sistematicamente atrofiado, mas está lá dentro. outro dia, outro mês, li sobre uma menina de 3 anos que matou o irmão bebê asfixiado. horrível, horrível, horrível. mas vendo a coisa friamente, numa situação extrema uma criança de 3 anos está apta a vencer um inimigo para, por exemplo, conseguir mais alimento. uma coisa bem bicho, por isso aterrador. é equipada para a guerra. só os bebês não são.

e morar numa cidade violenta não é exercer esse equipamento nem nada que o valha. isso deveria ser exercido individualmente, não tem relação alguma com manchetes de jornal ou com estar circundado por possibilidades de cano nas têmporas. é individual e corpóreo. sério, você vai passar o resto da vida esvaziando essa tensão pelos poros micrônicos em situações no limite da completa falta de sentido?

o que fazer quanto a isso eu não sei. nem faço, eu penso. arremesso um objeto quebrável ou destruo um pertence valioso; isso me faz sentir tão bem, e só posso encarar como um alívio um pouco maior para a tensão violenta. talvez por isso eu crie circunstâncias que envolvam inimigos e luta em coisas tão pequenas.

jesus, eu quero sair com uma faca entre os dentes e defender meu território, buscar meu alimento e arrancá-lo de outros dentes. sorrir o sorriso, mas sorrir também a velha ameaça dos caninos para os desconhecidos.

assim como é a tristeza, também a violência natural e justa. que o Alberto Caeiro me perdoe. apenas é.


22.7.07

meu duo elo ou a história de um erro


primeiro ato

ping - pong
PING - PONG
PING - PONG
PIIIIIOOOONG!

segundo ato
ping - PONG
p - PONG?
p - POOONG!

terceiro ato
p - pang...>
ping? -
PING! - p
ping.. - pong

quarto ato
pang - pong
p - PONG
- PONG!
ping - ce jura

ato final
PING
PING! - pong
PIIIIING! - pong?
PIIING - PONG!

BANG! _______

domingo - o tempo VI



hoje eu sonhei, e fazia tempo que eu não sonhava. ou lembrava de sonhar.
acho mesmo que eu não dormia.

um presente de domingo. pois domingo é o único momento que eu tenho para estar viva - do jeito como eu vivia há até pouco tempo atrás. no resto dos dias eu vivo outra pessoa, que vai bem, obrigada.

acordei às 8h00 mas estendi o acordar até 12h30 por não saber o que fazer com todo esse tempo. ou por cansaço mesmo. primeira folga em duas semanas liquidificador.

acordei o eu antigo, mas não, eu queria acordar e sair correndo esbarrando em transeuntes para estar na estação certa do metrô 5 minutos antes. é mais fácil assim - e então eu começo a viver o pensamento para outra pessoa que me aluga a alma atualmente.

mas despertei com a velha alma e ela está toda fodida. é isso mesmo, alma fodida. é o mais sincero a dizer. não quero olhar para ela então logo arrumo atividades. todas rapidamente executadas com precisão macintoshiana, então o tempo me agarra novamente pelas pernas e me derruba.

eu queria ter feito um retrato dele domingo passado. de como eu o sei agora, pois eu olho para antigas imagens e só consigo me ver nelas, como se ele fosse eu mesma. alguém conhecido. e o ele agora é um estranho e isso me destrói. acho que aprisionar uma imagem seria um bom jeito de amansar essa inquietação. os vários usos da fotografia.

mas bom, domingo passado passou. e eu cansei. e c'est ça.

de rien

20.7.07

(Conforme contatos telefônicos)


venho por meio deste ser intensivamente lapidada a ceifadas

milimétricamente arranjadas para constituir um novo ser

seu nome me escava e exala um poder

mas perfeitamente, é exatamente

o que eu preciso agora

para guardar

meu ombro

nu.

15.7.07

als der Tod



façamem fogo

barriga de vênus
fênix de pequenas mortes
em aceleração

caída erguida caída subida
de novo me sinto na ponta extrema mais que aberta do ciclone eterno-retorno em espiral de angulação matemática fora-do-tempo. na ponta mais burra. subida mais clara após uma morte bem negra. essa morte sempre sempre burra.

estou esperando pelo dia em que, olhando pra trás, a anos-luz da espiral, eu sorria e ria, até rolar no chão e a barriga de vênus doer com a alegria de ter fugido em direção à vida, ou pelo menos às pequenas mortes que valham a pena serem morridas.

vergess mich
mein todestrip

estranha beira



privada do golpe de misericórdia para uma morte homeopática

renasço como vim ao mundo - nua e sozinha.

olho no espelho uma pessoa desconhecida, com traços em formação, resultado de olhos mareados - e sozinhos, tanto quanto uma dupla de gêmeos. estrangeira de mim mesma e estrangeira de todo o resto, uma coisa é certa e boa. o andar nu, vejo uma cidade nova com o corpo arrastado por um mesmo velho lugar; mas as luzes, os olhos mareados as vêem de um jeito como nunca antes - e assim aguento e sorrio.
revejo como quem vê
repenso como analfabeta de uma língua morta.

as línguas nunca nascidas - dessas sim sentirei saudades
- acho que é tudo que ainda traz lembranças
e ignoro saber que elas são proclamadas
por outras cabeças estrangeiras.

14.7.07

fagotianas


fabio-te fago

corpo desarmado
fago-te sábio
se saiba-me

12.7.07

auschwitz pra cima de moi? - série do bestiário



alpistes de medo para um pássaro em vôo

te faz tão mal ficar só, sem guepardo
sem costas de marfim?
alpiste mesquinho,
alimento sem fim

em uma jaula sem fundo.
gaiolinha de egos.

não vejo mais meu verde
no teu olho quase negro
olho de passarinho urubu -
passarinho pensa que é macaco.

se faz de pedra, aquela da história
que me estendeu sobre seu fim
e pedra só não voa
não porque não tem as asas,
mas porque não quer.

um titã se alimenta de mais que alpiste
como pensa que consigo ser guepardo?
guepardo atira pedra ao longe até virar estrela
eu corro sobre o mel.

9.7.07

rio de janeiro - l'univers I




Depois de um fim de semana na via láctea voltar para as pás do liquidificador. Dilaceramento sempre lento, obviamente de baixo para cima. E olha que eu nem saí de dentro do apartamento.


Não há sentido ficar repensando remoendo. A merda é que a bola foi para a frente mas sempre volta um pouco atrás, e estava quase no ponto zero de um otimismo ingênuo. Eu sempre penso que ainda tenho 21 anos.

Saudades do século XIX. E da comidinha de fazenda e do céu mais estrelado deste canto do universo. O rio arrasa são paulo. Meu rio tem montanhas de luzes na noite cheiro de mar daguerreótipo bromo, amálgama de mercúrio. São paulo já sei demais. Mesmas velhas pessoas com mesmas velhas atitudes, mas eu gostei de chegar na avenida paulista às 5 da manhã e o dia ainda ser noite - porém sem uma única estrela. E eu que vi 10 estrelas cadentes em duas noites. Espero que meus pedidos realmente me levem para fora daqui, porque às vezes o peito sozinho não consegue e precisa de uma ajuda de infinito mesmo.