
acho que uma das grandes merdas do ser humano é o freio imposto aos instintos, coisas de bicho. a falta de orgulho animal. penso que eu sempre devo buscar essa aproximação com o que eu considero vida. enfim, penso. nada mais humano e menos animal, mas já que estou atolada nessa merda que eu pelo menos pense em como levá-la adiante.
entre os instintos animais básicos, além da nutrição e do sexo, há a violência. a necessidade da violência, que é totalmente excluída da ética humana (por ética humana tomo humano-ocidental-contemporâneo-cristão etc). a ética que rege a minha vida social, que seja. a violência está ali dentro, pulsando por expansão e propagação, e é cercada por cancelas morais o tempo todo - a violência é ruim, afinal de contas.
então você joga o instinto de violência no cotidiano urbano, criando targets e inimigos a cada passo, inconscientemente: o cobrador de ônibus, a pessoa lerda que atrasa seus andar corrido, o cretino que não responde o bom dia - essa triste e broxante guerra diária que você leva adiante pois onde diabos vai descarregar a maldita fúria? olha, é uma das coisas que me deixa mais melancólica quando paro para pensar. que me dá vontade de vestir minha pelagem e sair sorrateira às quatro patas me embrenhando por entre arbustos. mas não, eu sento no computador, ligo a banda larga, ouço iTunes e descarrego vontades a conta-gotas aqui.
o lance é, somos todos equipados para a guerra. isso é sistematicamente atrofiado, mas está lá dentro. outro dia, outro mês, li sobre uma menina de 3 anos que matou o irmão bebê asfixiado. horrível, horrível, horrível. mas vendo a coisa friamente, numa situação extrema uma criança de 3 anos está apta a vencer um inimigo para, por exemplo, conseguir mais alimento. uma coisa bem bicho, por isso aterrador. é equipada para a guerra. só os bebês não são.
e morar numa cidade violenta não é exercer esse equipamento nem nada que o valha. isso deveria ser exercido individualmente, não tem relação alguma com manchetes de jornal ou com estar circundado por possibilidades de cano nas têmporas. é individual e corpóreo. sério, você vai passar o resto da vida esvaziando essa tensão pelos poros micrônicos em situações no limite da completa falta de sentido?
o que fazer quanto a isso eu não sei. nem faço, eu penso. arremesso um objeto quebrável ou destruo um pertence valioso; isso me faz sentir tão bem, e só posso encarar como um alívio um pouco maior para a tensão violenta. talvez por isso eu crie circunstâncias que envolvam inimigos e luta em coisas tão pequenas.
jesus, eu quero sair com uma faca entre os dentes e defender meu território, buscar meu alimento e arrancá-lo de outros dentes. sorrir o sorriso, mas sorrir também a velha ameaça dos caninos para os desconhecidos.
assim como é a tristeza, também a violência natural e justa. que o Alberto Caeiro me perdoe. apenas é.