30.3.07

o tempo IV

série do trem - março07

entre o sim
mas pelo não
mais um dia vai em vão
vão-se todos a completar semanas
- que conto.
entre o sim
vou pelo não.

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composição
em verderosa
contrasta
os pés negros de dedo torcido
e a sola branca
dura
quer ser rosa.

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o vinco no rosto cavado de lágrima
assentava os traços
nos cantos, ao céu
do sorriso vivido.

29.3.07

o tempo III

o tempo do agora.
isso faz todo o sentido possível para mim, mas somente do lado de fora. em algum nível que não sei especificar - mas que certamente define o que sinto - são apenas símbolos que me ssão impossíveis de decodificar. todas essas letras.

parece-me que racionalmnete compreendo a teoria, então porque a dificuldade em fundí-la no maldito ser, naquele pedaço de nuvem que arde mais que qualquer coisa?

simplesmente aceitar que os agoras são passageiros, que na verdade não há tempo, que o passado é composto de matéria morta? afinal, a memória é um ato falho, e provavelmente só serve para confundir-nos pois sei que ninguém se alimenta de lembranças - apesar de às vezes pensarmos que isso é possível.

aí está, aquilo que normalmente se espera de uma fotografia é uma doença, tão verossímel quanto uma neblina que nos confunde a vista.

28.3.07

2003 foi um ano louco



apanhado 2003ziano


sobre nada mais raciocinar, por algum momento
nem velar por dentro
quero ser o meu vermelho

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quebra a linha do sono enquanto penso.
me retorna o gosto amargo
visão da luz no cromo denso
reflete teu eterno amor passado.

agora eu eterno amor passado

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"a atmosfera está saturada de desastre, frustração, futilidade. coça-se e coça-se - até não restar mais pele. todavia, o efeito sobre mim é estimulante. em vez de ficar desencorajado ou deprimido, divirto-me. estou clamando por mais e mais desastres, maiores calamidades, malogros piores. quero que todo o mundo se desmantele, quero que todos se cocem até morrer."
(aquele bom humor h.m.)

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me inunda por completo, preenchendo
meus sentidos com seus fluidos
(e eu amo tudo o que flui)
jorre sobre mim cada saliva, cheiro, pele
sêmen, suor, pele pele, pois tudo desejo.

despedaçar qualquer resquício de história e realidade em tua carne e teu espírito - abraçar o que há de intenso.

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chumbo com asas. a melhor definição.
e que pulsa pulsa pulsa em minha mão.

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os meios penetram pelos poros, a saliva se solidifica no cimento, e assim a dança prossegue até o ato final.

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cotidiano

e certamente veio, a cara amarrada, o levar a sério, o contrargumentar e a total ruína da noite. total. a mesa agora transbordava de constrangimento e eu só queria engolir o camarão terminar o vinho branco levantar e sair sobre minhas próprias pernas - nuvens de calças.

o tempo II

coisas girando numa esteira rolante a mil por hora e meu corpo gritando para se ater com os pés no chão. o tempo do orgânico mal permite que se estenda o braço e alcance uma porção do tempo eletrotecnomecânico que opera por dígitos.
tratamento de choque por doses hoemopáticas e eu sou muito jovem para conseguir rachar tudo isso ao meio e me permitir um modo de vida que opere como linha de fuga.
aliás, não sei se é só uma questão de tempo - pois não se pode desconsiderar a doença do território. mais um fator para deixar o corpo em frangalhos, e não sei se é muito romantismo, mas acredito que o corpo seria mais são se vivesse o nomadismo. ao menos por um curto período, um que me permita o descolamento do tempo numérico em eleição à temporalidade. às temporalidades, cada qual no seu espaço adequado.
por isso tudo me permiti o desligamento parcial de algumas ofertas da esteira girante. claro que - doença do tempo, do território ou da natureza? - sem deixar de me sentir um pedaço de merda inútil, que não serve de engrenagem a nada.

(pessimismo, ainda que romântico e nostálgico, de 2005 - bons tempos, maus tempos. agora mais dentro da esteira, tropeçando a cada passo)

o tempo I



o bom e velho tempo dos fluxos e intensidades.

o dispersar de sua caminhada vespertina desmembra o tempo não em horas minutos segundos, mas em fluxos de elétrons com feixes luminosos potentes o suficiente para rasgar a carne de um corpo vivo. com cautela, ela senta num banco ao pé de uma árvore e fecha os olhos, afinal ela não quer provocar nenhum acidente.

deixa os elétrons se debaterem dentro de seu corpo até sentir o esperado formigamento que acalma os fluidos internos. sob pressão arterial constante.

tempo, primo da morte, mas muito mais impiedoso.
recuperação de velharias.

eu nem lembrava da existência disso.
faz tempo, mas não tanto.

e por algum motivo muito irritante não dá pra logar pelo blog antigo.

10 Junho 2005

acabei de ver uma cena incrível. um mendigo deitado de bruços num colchão, e uma mulher pisando em suas costas. era uma massagem, e ele sorria de olhos fechados. esquina da higienópolis com a angélica.

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hoje vi duas coisas belas.

primeira, uma que já havia visto, mas agora no cinema: a liberdade é azul. queria dizer uma c
oisa sobre ele, mas já disse no primeiro post. mas é exatamente isso. a música é absurda (apesar de ter me tocado mais quando a ouvi pela primeira vez saindo das caixas afundadas e ruidosas da minha televisão), as luzes são maravilhosas, pontuais ou escandalosas, mas sempre com sutileza. as tomadas dos reflexos são de chorar, e a liberdade é só. assim como o amor. o homem da flauta. sempre temos que nos apegar a alguma coisa, e dorme com a cabeça sobre o estojo de madeira. mas um dia ele sai e deixa o estojo na rua.
me deu vontade de mergulhar numa piscina muito limpa.

segunda, eu também já tinha visto, mas em outro lugar. a série de fotografias pinhole-agfa da fátima roque feitas no Rio. emulsão dissolvida, marcas de digitais, horizonte deformado e linhas sinuosas formadas apenas pelo encontro da luz com aquela câmera específica. todas dispostas em caixas, pois a fátima é a mulher das caixas. tudo pensado e tudo sentido. e a bicicleta que desafia as leis da gravidade, apesar de não ser capaz de apontar esta como a minha fotografia preferida da série. por um momento diria que é a do guarda-sol com espectros, mas então vi mais uma sequência que me tirou a vontade de ter que optar por preferidas. no itaú cultural até 10.07.05. sempre em busca do branqueamento da caixa preta.

hoje vi duas coisas belas. e às vezes odeio a filosofia por me pedir explicações sobre isso. foda-se os problemas da estética. essas coisas são o meu belo, folhas secas são belas, sua mão apertando meu peito é belo, marcas de vida tátil em fotografia é belo, o aveludado de uma fotogravura impressa é o belo, mas por favor não me peça pra conceitualizar isso. por favor. hoje um homem viu o belo em mim, parou ao meu lado e ficou me olhando mudamente enquanto eu observava seu olhar pelo canto direito do meu. acho que ele viu beleza em costas e ombros nus seguidos de uma linha preta que terminava numa saia rodada - estava com cabelos muito negros e desgrenhados.

06 Junho 2005

as pessoas confundem existência com vida. a existência é individual e a vida está em tudo, perdura infinitamente além da existência. num acesso egoísta ou mesmo ignorante a maioria usa a vida para a existência, o que é uma grande besteira. deveriam usar a existência em prol da vida, o que é bastante difícil. mas pelo menos que tenham a consciência disso.
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hoje eu vi o brown bunny. filme bastante triste e bem egocêntrico dentro dessa tristeza - algo que eu posso compreender muito bem. mas minha tristeza é natural e justa. esses dias eu vi la notte do antonioni. também um filme triste, também uma tristeza justa, também algo que compreendi muito bem. é aquilo que acaba se transformando em anestesia para levar a existência adiante, mas que vai queimando cada célula silenciosamente por dentro.
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"O fato de uma coisa ser difícil deve ser um motivo a mais para que seja feita." a boa e velha sabedoria romântica, tão degenerada ultimamente. por isso as pessoas não entendem porque faço fotogravura.
"Assim, para quem ama, o amor, por muito tempo e pela vida afora, é solidão, isolamento cada vez mais intenso e profundo."
* rilke, cartas a um jovem poeta. enfaticamente recomendado

amar é solitário.
a fotografia também é solitária. eu amo e fotografo. e isso está também intimamente misturado, meu amor, a fotografia, as imagens de tudo isso, o reflexo que encontro para tudo isso. pois nós não conseguimos enxergar nada além de reflexos, só os cegos devem perceber as coisas em si. as coisas nelas mesmas. acho que isso atrapalha um pouco a minha relação com o amor. ele não é cego, é reflexivo.
meu amor está agora em contato com a morte, num lugar onde não posso abraçá-lo. me senti aliviada por ele estar inalcançável, pois isso me recobra a liberdade da solidão. não tenho como ouvir sua voz ou ir ao seu encontro se ele não o fizer antes. nem se eu quisesse muito. me lembra outra época em que ele estava mais inatingível ainda e não consegui lidar bem com aquele mês. a liberdade transformou meu chão em nuvens que estou tentando condensar até hoje.
posted by t. nardi @ 2:50 AM 0 comments