29.4.07

Der Dichter - Rilke

Já te despedes de mim, Hora.
Teu golpe de asa é o meu açoite.
Só: da boca o que faço agora?
Que faço do dia, da noite?

Sem paz, sem amor, sem teto,
caminho pela vida afora.
Tudo aquilo em que ponho afeto
fica mais rico e me devora.

(tradução de Augusto de Campos)

_______________

Du entfernst dich von mir, du Stunde,
Wunden schlägt mir dein Flügelschlag.
Allein: was soll ich mit meinem Munde?
mit meiner nacht? mit meiner Tag?

Ich habe keine Geliebte, kein Haus,
keine Stelle, auf der ich lebe.
Alle Dinge, an die ich mich gebe,
werden reich undgeben mich aus.

25.4.07

19.4.07

AA



jovem casal se encontra em quarto de cidade grande por uma noite e trocam carinhos e confidências fingindo não saber que nunca mais se verão.
anônimos anônimos

preciso descolar mais palavras

15.4.07

estou quebrada




sono, cansaço, acordei cedo, dormi pouco hoje vivi bastante.
mas não o bastante: vidro que brado e a quebra da fala uma dor forte
de
tudo dobrando por dentro gosto de sangue na boca.
goto de sangue na boca pâncreas no esôfago estômago ardido
nem tenho mais fígado foi um milk shake de tudo.
só depois eu saio e vejo o ferro retorcio de lataria amassada
via crucis de gente sem nome você está bem? você está bem?
apalpo e pareço inteira mas me sinto pedaços
vidro vidro cabeça vidro no chão estilhaço e eu só penso no fígado
mal consigo articular puta susto puta susto e o pâncreas no esôfago
melhor que no asfalto
hormônio louco me despertou do semimorto corpo gasto de dança
era só uma festa de aniversário, o meu; e eu acho que viciei.

13.4.07

cor traço papel

eu nunca escrevo direto na tela. escrevo não, digito.
escrever é no papel, com caneta de tinta nanquim.
eu viciei em tinta nanquim, ou em stabilo, porque elas servem bem pra desenhar também.
e a stabilo tem cores, que eu ainda não consigo usar direito
nunca saio do verde e do vermelho.
e quando uso as outras cores, é com daltonismo,
pois eu estou vendo só verde preto vermelho.

engraçado isso.
não é condição constante minha, é uma coisa mais de agora. do agora.
sem amarelo, sem azul.

me parece um caso perdido digitar na tela.
no papel tem o traço e tem a letra, e isso é bem importante na escrita.
e você faz o layout como bem entender também,
e enfia um rascunho de planta no meio de tudo
pois você acha que isso vai combinar com a poesia.

mas postar algum desses desenhos aqui, com esses textos sem corpo?
caso perdido.
e, como já me aconteceu umas vezes com esse negócio aqui,
este mesmo, desde 2003 - você surta e apaga tudo,
ou edita o que você um dia quis ter.
errado, errado.

no papel a coisa está lá, você guarda numa pilha de velharias
dentro da despensa
mas hora ou outra as páginas se arreganham na tua frente.
e então você relembra - e nessas horas o corpo da tua letra é tão
importante, até pra perceber em quais escritos você estava bêbada.

você = eu

11.4.07

série do bestiário

no mundo que me rodeia
lobisomem sem lua cheia

10.4.07

10.04


hoje eu não escrevo

e adormeço
eu não engordo
nem emagreço
quando de tarde
eu amanheço
o resto não sei

com certeza não amo,
odeio ou penso
decido se ando,
corro ou pereço
não lembro os nomes
nem endereços
quero que tudo se exploda
e agradeço
se apenas por hoje
hoje o dia eu mereço.

9.4.07

gravura por encomenda



açougueira de imagens

escavadeira de retalhos
afundo detalhes
e revelo em cada encavo
relevo
ponto por ponto
um insosso mosaico
- que não é meu
e às vezes eu acho
que carece de breu

l'amour ne dure pas toujour



eu sou uma pessoa por semana e não sei mais o nome de nada.
o frio está chegando e ele já me tocou com os dedos magros de um cachorro louco. a praia está tão longe e eu, consistente animal urbano, me descubro um humano do mar. por que tudo em mim é sempre ao contrário? realmente, não melódica como um violão, me sinto sintetizador. sinto hermética e expando em dor,
quanta combinação de botão.
mas agora, e logo agora que eu deveria ser trabalho, trabalho, trabalho, me pego repensando em amor.

mais leminski

lá vai um homem sozinho

o que ele pensa da noite
eu não sei
apenas adivinho

pensa o que pensa
todo mundo indo

um dia
eu já tive vizinho

_________

vezes sem conta tenho vontade
de que nada mude
meiavoltavolver
mudar é tudo que pude

espada



ponta seca e dura

de uma planta bastão
verde necessário que atravessa
vermelho de coração
sombra reta, uma fresta
todas juntas
até refresca

esta hora, mais um vão
em vão

oblíquo

penso vezes que não vou conseguir
que o R de pedra
vire R de pluma
e o arranhar da garganta
arisco de puma
fique macio e fácil
como o nasal de um cão
nein nie no nicht
tão suave como não
cada uma das mil gotas
re-regam o orvalho fresco
no cimento
e assim te penso -
úmida como orvalho
variado pelo vento
tesa de cimento
te lembro.

la vie en close / c'est une autre chose

matar, a mais alta forma de amar,
matar em nós a vontade de matar,
voltar a matar a vontade,
matar, sempre, matar,
mesmo que, para isso,
seja preciso todo nosso amar

___________

vazio agudo



ando meio



cheio de tudo

(P.L.)

8.4.07

bicho - série do bestiário



vou e faço

sem ver o sentido em nada
as pernas movem e andam
minha cabeça não se abaixa
as palavras saem todas umbigo,
entranhas
esôfago para fora
sem sentir o sentido de nada
em frente eu ando não sofro,
não rio, não amo
ando
topo os pés em cada cama
sem deixar lágrima para trás
me engano e engano
esqueço as frases
carrego só as mãos
que me carregam
de novo anônima
caminhando
sobre o sentido
de nada
aquele que rimava com cada passo
nada
sem sentido desfaço
as teias da minha cabeça dura
teias de aço
dá muito trabalho ser bicho.

cheiro



estou cansada
pouco mais que cansada_
esta
noite se apaga sem ouvir tua voz.
fez você como eu e se perdeu
numa pele que te satisfaz,
mas não como a minha.
não há sexo como o meu você diz_
sigo macia e feliz.
sei que, por mais que eu tente
,
não há sexo como o teu.

7.4.07

ficções do interlúdio

nem sempre sou igual no que digo e escrevo.
mudo, mas não mudo muito.
a cor das flores não é a mesma ao sol
de que quando uma nuvem passa
ou quando entra a noite
e as flores são cor da sombra.

___________

navio que partes para longe,
por que é que, ao contrário dos outros,
não fico, depois de desapareceres, com saudades de ti?
porque quando não te vejo, deixaste de exisitir.
e se se tem saudades do que não existe,
sinto-a em relação a cousa nenhuma;
não é do navio, é de nós que sentimos saudade.

(A.C.)

calor em noite fria



meia face rubra

incendiada pelo forro
baixo e quente
queimando como bafo ardente
minha alvura fina.

meia casa quebrada
de vidas amontoadas
isenta de ilusões
pra noite de fim certo.

meio centímetro
a distância de um rosto
que não reconheço
pairando em ar espesso

e de novo, sem perceber
às 5 amanheço.

2.4.07

caralho de boné, eu vou enlouquecer putaqueopariu
eu só quero dormir dormir dormir dormri dormri dormir

insônia - o tempo V

cordão latejante de sangue
insiste em esmurrar, vindo da perna,
a entrada esquerda da virilha
- l'entre d'enfer -
impedindo o sono de se assentar em mim
sempre desperto pelo barulho volumoso da veia.
5 e 20 da manhã, então já é bem segunda feira.

1.4.07

num espaço roubado sem cama

queria vê-lo sem roupa, todas jogadas
no chão com algum mato.
o chumbo e as asas em riste
olhos vazios
e a linha central do corpo planície.
um corrimão de ferrugem
da escada sem saída
muito importante -
seus olhos vazios
só a pele tem vida.