31.7.08



socorro, socorro de novo. não posso deixar que este louco me leve. passou os útimos meses se livrando de toda lufada de ar espesso, qualquer coisa que estivesse muito próxima do chão. insuportavelmente seria esquecê-la de novo - então ele foge para isso, para o desembaraço total e esquecimento. lama seca intransponível. como se houvesse algo assim. olhando pela janela, as luzes da fábrica à frente sempre ficam acesas, e esta terra não tem verão. lembrou dos páraquedistas caindo no mar, uma das cordas se soltando e ela em queda livre, totalmente destroçada. ninguém soube mais que o rapaz a ladainha do é possível, estamos bem. repetida à exaustão, funciona como um bom paliativo - um som tão enfurecedor que é impossível outra saída, outro subterfúgio para a vida. sempre difícil renascer e riscar linhas retas quando se pretende desfazê-las.
e como serão as pessoas neste outro lugar, espécie de cidade vermelha. às vezes pensa que gostaria de estar indo para alguma ilha ou pontões à beira-mar. teve seus melhores momentos em lugares assim, e alguns entre estes são as coordenadas de onde morará um dia, ao menos por três meses. desfaz os nós dos cadarços, renuncia ao pomo de adão e assume tudo o que acontecer - estamos aqui para rir disso.
se sentou para arrumar suas fotografias, precisava achar algumas de boa forma para o evento. nada que tivesse vestígios dela. em uma das fotos em que aparece melhor, descontraído, cabelos bonitamente bagunçados, até a coisa de luz e sombra estava boa - conjunção rara para essas com erro de paralaxe - mas depois de uma auto-examinada inicial e aprovação, notou: o corpo dela cortado, afundado na sombra, o rosto não aparecia mas o corte acabava bem no meio da virilha e ela usava um biquini azul. caramba. pensou em tirar fora uns trechos da imagem, mas já estava tudo estampado: não poderia olhar para a foto, ali no meio da celebração do casamento, e não se lembrar do dos cortes envolvidos: um na virilha, e outro na mulher toda. mas tinha um guarda-sol tão bonito, e ele gostava do efeito de cores de guarda-sóis quando viram imagens. a maioria delas eram em praias - e de fato acha que é um cenário favorecedor, sua pele se destaca na areia e a areia tem todo aquele volume que dá uma textura bonita, etc. mas a maior frequência, na verdade era que todas haviam sido tiradas por ela. tirar fotografias, é uma expressão sem sentido. nas em que aparecia sorrindo, eram de umas viagens boas. para cuba. tem uma bem interessante entre essas, mas está péssimamente vestido, com pochete marrom-bege e calça branca. é, horrível. eles estava bem felizes esse dia depois de conhecer aquela escultura do cavaleiro e um tipo romano seminú com escudo redondo. que músculos! outra, sentado nos canhões. algumas nas cataratas, de cabelo maior. e as dos anos 90, todo mundo feio. os piores óculos que já teve na vida.

30.7.08



caramba. parece que ele tem que ler nietzsche 3 vezes ao dia, mais o remédio, para não começar a se sentir um idiota. até hoje não acredita que deixou aquela garota escapar. aquela mulher, one solid fucking woman, que chegou a odiá-lo na época da fuga e um pouco mais. depois disso, se afogou em vinhos tardios - ela - e dança, muita dança.
decide ignorar os amigos e passar a noite só, tentando fazer mais algumas músicas. mas sabe que está todo prejudicado pela memória e que não faz nada de bom há um largo tempo, nem mesmo um desenho. parou também de desenhar, se bem que ainda lê. largou os bons romances e se cansou da maioria das outras coisas também, mas tem lido uns livros de jornalistas - que são como documentários sem imagens.
assiste um pouco de tv sob o edredon após folhear um pouco textos sobre músicos negros, mas não consegue se fixar em nenhuma fala específica, porque uma história fica sendo contada e recontada na cabeça, cada vez com diálogos e cenários diferentes, o rosto então, nem se fala. a memória está toda prejudicada. sabe descrever bem as feições da mulher, mas fixar seu rosto na cabeça é tarefa impossível. movente. e ele imagina que ela está por lá, falando uma língua que lhe é estranha mas bem sonora, voltando à pé às 5h das manhãs.


acordou de mais um telefonema. quando deu por si, de novo: estava falando como se fosse uma estranha com alguém que nunca havia visto - mas vivendo completamente sincera um lance de outro nome - diferente modo de se expressar - até um tom de voz todo outro. que diabos, a maldita memória. me pegou de novo, pensou. felizes são aqueles índios para quem só existe futuro e não-futuro, meio menosprezando toda aquela putaria que não o fosse, e que diferença faz na verdade se é tudo movente? levantou com uma ansiedade, passando as mãos do ombro aos quadris com uma força desprovida de sensualidez.

foi para o fogão, ligou a chama da boca menor com a faísca de um isqueiro sem gás, acendeu o toco do que havia sobrado com cuidado para não aquecer demais a ponta do nariz e ficou um tempo ali esquecendo a palma das mãos, alternando-as com o toco.
caramba, esse doce é horrível. mas depois de todo aquele caso feito, vou ter que comê-lo inteiro. é até meio besta escrever assim - comê-lo - me sinto tão antiga, pensou. sempre ficou na dúvida entre abraçar ou se livrar do espírito de XIX, então decidiu por viver dos dois jeitos em espaços de tempo diferentes. dá um certo descompasso que não a deixa realmente terminar nada começado - na realidade já aceitou isso também, as coisas são uma grande continuidade umas sobre as outras, não haveria mesmo modo de terminar. e dizer parla, é isso e é certo. impossibilíssimo, pensou.
largou o doce, ela prefere as ameixas frescas. ah, eis o homem. cadê? entrou de novo no estado de anônima e voltou para casa à pé, às 6h15, com a bolsa meticulosamente bem checada e, abrindo os olhos após acordar de mais um telefonema como petra, viu: caramba. os discos.

28.7.08

bestiário VII

eu apenas ataco coisas que são vitoriosas -
caso seja necessário
eu espero até que elas sejam vitoriosas.
(...) atacar é uma prova de bem-querer em mim e, conforme a
circunstância, de agradecimento. eu honro, eu distingo com o
fato de unir meu nome a uma coisa, a uma pessoa: contra ou a
favor -- para mim não importa.

f.n. - ecce homo
sempre um filho da mãe nobre.

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o rio de janeiro?
está ótimo. até agora não encontrei nenhum réptil ou anfíbio, especialmente aqueles com que estamos acostumados a nos deparar em são paulo. vi sim: um pavão que protegia seu ninho a chutes, uma garça, marrecos duelando lum laguinho lamacento, uma galinha d'angola - sobretudo, aves - um cisne num filme, um sagüi num sonho e um cachorro com conjuntivite na porta de um restaurante com ótimas sobremesas - ele tremia de frio, - estamos num alto vale entre montanhas ou morros - o ar está seco - minha boca rachou ao meio.

ah, as duas? só reclamam.

25.7.08

l'univers II



mas então, perguntou ele com calma fria, o que há com toda esta história de carreira - é realmente necessário ter uma - o que é que estamos fazendo com as nossas vidas desse jeito? tem uns caras que sobreviveram sem se debruçarem sobre uma dessas, e ainda num nomadismo sem grupo.

- é, tem essa minoria. mas a maioria dos vagabundos e viajantes sem emprego ainda é apenas alguns vagabundos viajantes; as bocas cheias de formigas e mel.
- e a maioria dos funcionários são funcionários e só, as gargantas cheias até o sino de areia. e o que eu não entendo é porque nos parece tão vitalmente importante sermos uns desses. mas não estou entrando na questão das roldanas, engrenagens besuntadas de petróleo aqui; isso já foi mascado e cuspido, tanto. o grande lance é: e o que fazemos com os animais e a sede?
- olha meu querido, meu reptilzinho úmido, fruto de uma terra tão fértil, solo do plantio de macadâmias: é melhor não entrarmos nesse assunto de universo, vidas no não-vácuo e aniquilação por raios gama escapados da morte de estrelas monstruosas. só te alerto de antemão, já que sempre começamos com lamentos profissionais e terminamos atolados até o pescoço com a imbecilidade nossa, e o tempo e o cosmo. sabe, eu tenho um mês duro pela frente e não posso desperdiçá-lo pensando na nossa mais completa insignificância. já te disse bem como meu chefe tem pegado no meu pé.

21.7.08

o cotidiano II



ele se encontra lá, na sala, à espreita, miserável, mau-humorado e abduzido. tento sorrir e provocar uma espécie de higiene budista, pois acima de tudo temo por ela: que precisa de apenas suaves doses de liberdade e apreciação para alguns momentos de plenitude, tão sinceros e justos. por negar-lhe isso o olho de soslaio, com uma espécie de desconfiança - de que ele não será suficiente para mantê-la feliz, apesar dela precisar de tão pouco na verdade, como flores brancas num campo muito amplo e abelhas em estado larval. e isso me dá um certo desamparo pelo amor e pelo futuro, já que apesar de saber que ele poderá sempre existir (o amor), não sei se algum dia deixará de ser imaturo - nele, os humanos se encontram em seu estado mais bobo, se mal dosado - e fonte de diversas privações, jesus, tão tolas.

-
santo de qualquer coisa, me liberte dos adjetivos e advérbios
pois de sua tentação sou incapaz de fugir.

17.7.08

bestiário VI



hoje a madrugada está cheia de vozes. a atmosfera sempre fica anuviada nessas horas. como dois leões latiram bem e insistentemente, mas quem tinha juba era a fêmea e quem mascava a pele era o macho. depois de ter levado umas machadadas no esterno ela ficou assim, transitando entre a amnésia e o anonimato, colecionando números. a memória teve de criar suas linhas de fuga tangentes ao cone, se alimentando apenas dos lobos. e aquele rapaz é uma ótima sobremesa. é tocada por seus olhos de áquario e fica maravilhada com a pelagem, que cresce de baixo para cima enquanto ele a sorri. dois dias depois e ainda não recobrou a força nas pernas. um bom duelo entre cavalo e cavaleiro, sempre alternando as selas.

bestiário V



o que é por essas coisas não sabe. acontece: um mais novo jovem gato a invade, mas não a conhece, e é por isso mesmo que gosta. verdadeira espécie felina com a voz mais bonita entre os rapazes que conheceu. é a voz que não pertence mais aos rapazes pelo tom. diz gostar das suas pernas e soa muito bem quando constata a lembrança de uma das poucas falas dela - eu uso grampos, e eles estão todos na sua cama. lá embaixo a música continua muito alta e boa, mas mal consegue ouvir. já se despediu, um pouco menos anônima, mas deve voltar. à noite não consigue tirar dos olhos as mãos em seu tronco, então virando de costas - e, sozinha, espalma com força o lençol da cama com a imagem e erguese pelo quadril. se mia revê-lo a morder.

16.7.08



eu gosto do som da minha unha se desfazendo. chegar em casa mais uma vez àquela hora e comer os bombons que foram presente. todos deviam falar karitiana, pois eles têm o futuro e o não-futuro, que não se distingue dentro de si. aprendi e felicitei a humanidade por ter ainda possibilidade, e a linguagem é entre as melhores daquela - nem vou chegar a dizer que é punhado de vírus pois tantas coisas os são. e nos encontramos vivos por cada vez mais tempo, desfazendonos como unhas.


para lelê, aquela que chamam de xota.
põxa.
me contou o que é um morfema.

15.7.08

pax im todestripliebe



sonhei com pingüins em conserva, mas se pareciam com pequenos patos. esta noite também acordei no meio com a camiseta molhada, aquela azul da pantera, pois mais uma vez chorei subindo a ladeira. estou aliviada de sorriso e melancolia, enfim em paz. e a melhor maneira de carregar um amor é mesmo detoná-lo a machadadas - assim saímos da coisa mas não totalmente, com um sentido a mais de bravura. e a paz é por saber que sempre me haverá aquele inimigo, o maior de todos. por mais que eu venha a inventar novos ao longo do caminho. mas, no entanto: o que foi que fizemos, meu deus? que chova uma tempestade por nós.

13.7.08

bestiário IV



as funções de hoje: mergulhar na banheira com gelo, parar de escrever livros enquanto durmo, ascender a árvore do avesso, resgatá-lo do creme brulée, pensar na dor do pato - aquela forma criança de voar, e atravessar sem olhar. e por estar num lance de me desfazer, concorro a carros roubados por quem pensa que levo o Nada a sério. permaneço intocada por esperar que cavalos se comportem como felinos, mas a verdade é que eles têm mesmo 16 patas, em desafio ao Tempo. então alguém diga a seu amigo que é sempre mais interessante brincar com vértebras antes da próxima aurora, por mais novas que elas sejam - pois do que nos adianta escrever como se estivéssemos no XIX, se estamos aqui tão descrentes no vinte e um?

alguns passos de hontem: os alarmes dos carros piaram. o meu colchão se afundava ao centro. sob ritornelos adormeci para não fazer da noite uma perdida ao voltar de novo cambaleante - do velho ao antigo, em passos de ancião. o tiro, disse o doutor, foi no coração, mas juro que vi o sangue aflorar da cabeça.

9.7.08

um inimigo I



numa provação
tanto casta e devassa
como provocação
masco os anseios que
em mim inflige
- o inimigo

destroço seus dentes
em sonhos
os mastigo.
ademais vos digo
que ele se morde
em ode ao medo
que o aflige
e em devoção deste
mesmo me inflige
uma desordenada
punição.

bestiário III



tudo o que acontece no presente passa por todo o conjunto da memória. o ponto de jorro do presente é habitado por lobos. todos os lobos adormecem ao cessarem os uivos. cada noite ouço uma explosão nos arredores do meu quarto. os landers passeiam incessantemente sob cobertores no escuro. a cada passada na calçada ouço o fervilhar das palavras contrabandistas. alguém um dia viu minha figura projetada no asfalto. às vezes as reações químicas se desequilibram, e isso é um problema da termodinâmica. eu sempre quis poder sabotar os preceitos da física. todo esse papo de universo me faz desejar muitas responsabilidades para tirar da minha cabeça a liberdade. um rapaz com dentes magníficos se esgota em coisas que não me interessam. prefiria ainda que gotejasse sobre mim.

das ist fertig.
c'est fini, o infinito.

8.7.08

bestiário II



me embala numa espera tola da cantiga que não me existia, ladainha que os bichos consideram perversa - entoada nos segundos entre o sono dos sólicos e a aurora dos notívagos. não entendo, menina que me pensa, pequena virtuosa das coisas fugazes, esse nada que o rapaz deseja e mia tormenta tornada vermelha após um breve_calmo verde. aguardo apoiando a palma num espeto, afogada por sonhos etíopes (minha pele abriu os olhos toda úmida esta manhã), e enquanto ele persegue seu esgotamento entre vídeos e textos, não percebe que vou atrás deste mesmo em quando danço até que mesqueço.

um viva ao desperdício de energia e ao total desequilíbrio termodinâmico.

4.7.08



II

Ver-te. Tocar-te. Que fulgor de máscaras.
Que desenhos e rictus na tua cara
Como os frisos veementes dos tapetes antigos.
Que sombrio te tornas se repito
O sinuoso caminho que persigo: um desejo
Sem dono, um adorar-te vívido mas livre.
E que escura me faço se abocanhas de mim
Palavras e resíduos. Me vêm fomes
Agonias de grandes espessuras, embaçadas luas
Facas, tempestade. Ver-te. Tocar-te.
Cordura.
Crueldade.

H.H. - do desejo.