25.8.07

O suicídio, o vôo e a mariposa




"Impressionante o depoimento de um dos poucos sobreviventes de um desses saltos no vazio. O rapaz deprimido conta que, imediatamente após soltar-se no espaço, arrependeu-se do ato, e buscou cair de maneira que pudesse sobreviver. Mas escapou por um triz e com graves ferimentos. Aqueles poucos segundos que separam o alto da ponte das águas do Pacífico foram empregados em meditação relâmpago sobre a vontade de morrer e o desejo de viver. Este prevaleceu."


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Sempre penso nas possibilidades do ato suicida. Isso desde há muitos anos, nada ligado a um desejo implícito - curiosidade mesmo, do que pode acontecer no tempo que circunda a escolha feita e a morte em si. É, obviamente, um tema dilacerador, e para mim a pior dor possível de se ter, é a do arrependimento nos segundos ou fração deles que separam o ato feito do de-fato-final.

Pensando nisso, os pulsos cortados seriam o suicídio mais permissivo com a vida, o tiro na cara o mais leve e o pior, pior pior pior pior de todos é o suicídio de quem que se joga.

Cortar os pulsos, apesar de ter em si uma das coisas mais aflitivas para mim - a lâmina abrindo a pele, que sempre me manteve longe da Medicina - e que exige uma coragem e frieza fudidas, leva ao menos alguns minutos até a morte. Dá tempo de estancar, gritar por ajuda, chamar a ambulância, voltar atrás. Você vê um belo curta-metragem da vida passando sob seus olhos.

Tiro, na cara, na cabeça (acho que quem se mata com tiro tem que ser na cabeça), é instantâneo após o gatilho. O pré-gatilho é o pior, mas uma vez decidido BUM!, vai de uma vez, dor ardida e quente que mal deve ser sentida.

Agora, subir a um parapeito, ao topo de um prédio, a uma janela sem grades e decidir pular - putaqueopariu. Claro, não vou comparar o momento da escolha. Isso deve ser desgraçado em qualquer hipótese suicida. Não tenho nem como querer aprofundar isso. Destruição total e aniquilação, ponto. Mas bem, está decidido (ou pensa-se que está) e quem pula ao menos experimenta o vôo, que deve ser a melhor sensação a se ter na antemorte. Mas existe o tempo, curto mas infinito, do momento em que suas mãos não agarram mais o sólido ao vôo que só pode ser para baixo. São esses segundos em que você realmente se dá conta, passa qualquer dor de vida, o que for, e percebe que acabou, você está ainda vivo e consciente de que acabou tudo, tudo para sempre, escuridão eterna, sem volta, acabou e a consciência é que deve matar. Antes de chegar ao chão, por mais que ele arrebente toda sua carne e esmague seus ossos, saber, ainda vivo, que você está morto por escolha própria e NÃO, porra, não era bem isso e. Muito pior que metal cortando a pele, que depressão, que vontade de nada.

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Além do fato de que eu tenho uma atração absurda com alturas. Acho que é o meu maior medo. Jamais pularia de pára-quedas. Não consigo chegar à beira das janelas de apartamentos muito altos, vou meio engatinhando e olho a vista segurando firme em algum móvel pesado. Parece que toda a estrutura predial vai se curvando para a frente quando olho para baixo. Às vezes consigo olhar e posso ficar uma eternidade, fascinada com a distância ao chão. Mas eu jamais olharia para baixo estando no terraço de um prédio. Aliás, subir em terraço de prédio é quase impossível. Algo como a sensação que tenho com as mariposas. Tenho pavor letal daquelas grandes com os corpos gordos e peludos. Terror, não chego perto por nada desse mundo e é bem capaz que eu saia gritando em direção ao mais longe possível. Como se, se eu me aproximar, coloco na boca - mastigar mesmo. É uma sensação muito muito esquisita. O mesmo com a altura. Se eu chegar na beira de um vão muito alto e aberto, dá vontade de voar.

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