31.7.07

O Luto - e 100 dias foram poucos



Aff. Eu só tenho tempo hábil mental pra pensar nisso uma ou duas vezes por semana. E isso obviamente não é bom do ponto de vista beckettiano - que a lama seca intransponível cubra toda essa porra de uma vez!
Mas não, não é assim que funciona. Eu simplesmente não consigo viver o luto final da coisa toda. Numa espera suspensa constante.
Feita de mar, espuma e nuvem nua (das calças que, secando no varal sob céu laranja, foram roubadas), nada de lama. De matéria com força extrema quando unida, mas solvente a qualquer toque. Um navio que vai e vem, vai e vem até que o casco enferrujado se desfaça - bem aos poucos, como tem sido, lasca por lasca. Pintura refeita às pressas com tinta de terceira, vermelha. Netuno nenhum para vir e estraçalhar com tudo de uma vez como eu desejaria. Ou tornado, ou tufão - natureza me deixando na mão da estupidez humana. Densa como chuva, que destroça cidades mas vem em gotas.
Só penso na violência enquanto chovo, pois nada mais que isso constitui meu luto. Violência. Destruição de planetas internos, pequenas constelações de leite morno, via láctea sem nata nem nada. Toda vez que penso estar cara a cara com a filha da morte, mais um engano. Mais um rodeio de vidraria quebrada, mas nada de cristais. Nada puro renasce disso como deveria.

Achei que a coisa fosse mais rápida.

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