nunca ninguém me explicou o que era a morte. pais ateístas, tudo que aprendi sobre a morte foi em filmes de terror que via por brechas de portas, sentada nos últimos degraus da escada da freguesia do ó. pra mim, morte sempre foi sangue. meu tio, aquele que me deu um bezerro, morreu com um tiro no coração. eu estava comendo beterraba, vomitei. sem julgamentos dos seus atos terrenos, ou anjos da guarda ou almas penadas, só o sangue escorrendo até o corpo ficar seco e a pessoa então sumir. pensei em quem ia cuidar do bezerro agora, se ele também ia secar. então eu me lembro de quando minha mãe nunca me contou sobre morrer.
minha avó me levava pra passear no cemitério de caieiras. ele era muito antigo, meio abandonado, com lápides quebradas e esculturas encardidas. cercado por pinheiros. eu gostava de rolar na grama ali, porque tinha um declive. e dos anjinhos: ela me explicou que eram crianças mortas, mas eu sabia que elas só sangravam e viravam flor e mato e ponto. queria tentar enxergar os ossos pelas brechas nos túmulos. gostava da idéia dos ossos, mas morria de medo dos santinhos impressos em papel barato com orações macabras no verso. e mais do que tudo, tinha pavor daquela parte do ave-maria que rogai por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte amém - e isso repetido à exaustão, mas porquê um mantra desses!

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