30.7.08



acordou de mais um telefonema. quando deu por si, de novo: estava falando como se fosse uma estranha com alguém que nunca havia visto - mas vivendo completamente sincera um lance de outro nome - diferente modo de se expressar - até um tom de voz todo outro. que diabos, a maldita memória. me pegou de novo, pensou. felizes são aqueles índios para quem só existe futuro e não-futuro, meio menosprezando toda aquela putaria que não o fosse, e que diferença faz na verdade se é tudo movente? levantou com uma ansiedade, passando as mãos do ombro aos quadris com uma força desprovida de sensualidez.

foi para o fogão, ligou a chama da boca menor com a faísca de um isqueiro sem gás, acendeu o toco do que havia sobrado com cuidado para não aquecer demais a ponta do nariz e ficou um tempo ali esquecendo a palma das mãos, alternando-as com o toco.
caramba, esse doce é horrível. mas depois de todo aquele caso feito, vou ter que comê-lo inteiro. é até meio besta escrever assim - comê-lo - me sinto tão antiga, pensou. sempre ficou na dúvida entre abraçar ou se livrar do espírito de XIX, então decidiu por viver dos dois jeitos em espaços de tempo diferentes. dá um certo descompasso que não a deixa realmente terminar nada começado - na realidade já aceitou isso também, as coisas são uma grande continuidade umas sobre as outras, não haveria mesmo modo de terminar. e dizer parla, é isso e é certo. impossibilíssimo, pensou.
largou o doce, ela prefere as ameixas frescas. ah, eis o homem. cadê? entrou de novo no estado de anônima e voltou para casa à pé, às 6h15, com a bolsa meticulosamente bem checada e, abrindo os olhos após acordar de mais um telefonema como petra, viu: caramba. os discos.

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